terça-feira, 11 de agosto de 2009

Convite...




Virou a chave da porta, e como já esperava, lá estava Ricardo a sua espera com um ar que pretendia ser serio (para a assustar), de braços cruzados, mas mal Raquel entrou, Ricardo desmanchou-se a rir.
- Tenho cara de palhaça, ou quê? – Perguntou Miky também a brincar, tentando no entanto parecer uma inocente criança que não sabia qual era o mal que tinha feito, ou melhor, tentando fazer parecer com que nada de extraordinário tinha acontecido. No entanto Ricardo olhou-a com aquele olhar que não deixava dúvidas de que não valia a pena tentar evitar o assunto. – O que queres saber? – Perguntou Raquel como que esforçando-se para não implorar por falar naquilo noutra altura.
- Não é óbvio? – Despejou o irmão, Raquel abanou demais a cabeça em sinal negativo, o que a fez sentir-se novamente tonta, dirigiu-se por isso à sala, para se sentar no sofá, aquela conversa seria, naturalmente, demasiado longa para o gosto de Miky, por isso seria melhor sentar-se, Ricardo riu-se novamente, e começou a despejar a baldada de perguntas: O que aconteceu? Sabes que não me consegues esconder nada! E… eu sou o único a quem podes contar isto, visto que as tuas amigas não iriam gostar de te ouvir… Vocês andam? – Raquel não conseguiu reter todas as perguntas, e por isso limitou se a responder a que ela sabia que seria a que o irmão mais queria ouvir:
- Não!.... É claro que não andamos, que disparate é esse?! – Perguntou Miky, não querendo no entanto saber a resposta. Ricardo, como já tinha dito anteriormente, conhecia-a bem de mais, e era obvio que com aquela simples pergunta, ele iria direitinho ao ponto fraco de Raquel. Mesmo que mentisse sobre o que sentia, ou o que pensava estar a começar a sentir por Tiago, ela tinha a certeza de que o irmão, mais do que qualquer outra pessoa, não se iria deixar enganar-se. Desistiu de mentir ao irmão, mas como também não lhe queria contar toda a verdade, “fugiu” para o quarto, e fingiu estar a estudar História. Passaram-se horas, durante as quais Raquel não fez mais nada, se não pensar no que tinha acontecido nessa tarde, não estudou, não comeu, simplesmente se deitou na cama, e sempre que alguém ia ao seu quarto, fingia estar a dormir, para não ter de voltar a falar, com quem quer que fosse. Quando a noite caiu, fechou as persianas, mas voltou a deitar-se. Queria fazer algo, queria comer, queria falar mas não sabia o quê, nem sobre o quê. Acabou por adormecer, por volta da meia-noite, e no dia seguinte quando acordou, parecia que aquelas horas passadas no quarto tinham sido desperdiçadas, afinal, ela já decidira. Iria ser “Amiga” de Tiago, quer quisessem, quer não! Ficou surpreendida por não ter sono, nenhum, pois as poucas horas que dormira tinham sido passadas a vaguear por sonhos, pesadelos. Abriu a janela para poder ver como estava o dia. O céu estava carregado de nuvens que ameaçavam rebentar a qualquer momento e deixar cair baldes de água sobre o solo. Vestiu umas calças de ganga e umas quantas camisolas, para se assegurar de que não teria frio. Não suportaria outro abraço daqueles, por muito agradáveis que fossem. Uma vez que se levantou mais cedo do que costume, saboreou o pequeno-almoço, ainda era bastante cedo para ir para a escola. Quando Ricardo entrou na cozinha e viu que a irmã estava consideravelmente bem-disposta, ainda ficou mais espantado do que a própria Raquel, quando percebeu que sorria. Não sabia ao certo, mas tinha um pressentimento de que as coisas não seriam assim tão más, tento o apoio de Tiago. De repente a campainha tocou, trocaram um olhar de espanto. Ainda era muito cedo para receber visitas… Teria acontecido alguma coisa?...
- Eu…Vou ver quem é… - Disponibilizou-se Ricardo. E saiu tão rapidamente da cozinha como voltou a entrar. - Hum, pois… Raquel, tens uma pessoa à tua espera…é…melhor despachares-te… - comunicou, este.
Raquel ficou baralhada, mas ao mesmo tempo ansiosa por descobrir quem estaria a sua espera, por isso, devorou o resto do seu pequeno-almoço, e correu, para o quarto para ir buscar a sua mochila, guarda-chuva, e por um pouco de perfume.
- Adeus mãe, pai! – Despediu-se.
-Porta-te bem! – Retorquiu o pai, ao que esta não respondeu. Já ia no hall de entrada e parou para respirar fundo, em seguida abriu abruptamente a porta. A curiosidade que estivera até então estampada, no seu rosto transformara-se em completa surpresa. De todas as pessoas que Miky esperará ver do outro lado da sua porta, aquela era a que menos possibilidade pensara ter em ver, mas era também a que mais provavelmente lá estaria, considerando os recentes acontecimentos.
- Bom dia! – Saudou Tiago, dano um beijo na cara a Raquel, ao que o seu coração respondeu com um “saltinho”. – Vens?
- Hum…Claro… - respondeu Raquel meia desorientada. Caminharam juntos, até à escola, e quando lá chegaram, deram algumas voltas, até que, o estridente som da campainha os fez acordar e se encaminharam para a sala. Quando lá chegaram, aperceberam-se de que os colegas os olhavam desconfiados, como se soubessem de um segredo que ambos mantinham e que agora tinha sido descoberto. Parecia que os queriam censurar por algo que tinham feito, só pelo olhar! Miky olhou confusa as caras, irritadas, e depois olhou especialmente para: Lua, em primeiro, que parecia demasiado desiludida para apresentar qualquer sinal de irritação, Bia, que apresentava em clara expressão de repreensão e por fim olhou para Leu, que parecia que lhe tinham apunhalado as costas! E o pior de tudo isto é que nem Raquel nem Tiago sabiam a que se devia aquela recepção tão pouco amiga. Raquel queria perguntar o que se passava, mas não teve coragem, e por isso, foi juntamente com Tiago para um canto, mas nem assim deixaram de ser perseguidos pelos olhares irados. Tentaram esquecer o que os rodeava, e conversavam sobre um tema que lhes ficou alheio, pois nada do que diziam se fazia ouvir sobre o que viam. Passaram uns dois minutos, ou nem isso, até que a professora chegou e a sua turma se encaminhou para a sala. Miky não sabia se estar com o seu grupo de área de projecto seria bom ou ainda pioraria mais a situação, tinha um mau pressentimento e isso não lhe agradava! Ainda por cima, de todas as pessoas do seu grupo (- Bia, Lua, Jéssica e Vanessa), nenhuma delas parecia querer ajuda-la a compreender o que se passava…e muito menos falar com ela…
Entrou na sala acompanhada por Tiago, pareciam-se com uns delinquentes que passam por um réu de juízes, e de todos esses juízes, parecia não haver um único a querer defende-los. Lançou um último olhar desesperado a Tiago, ao que este lhe respondeu com um igual e foram ter com os respectivos grupos, Miky sentou-se com uma vontade quase que invencível de sair daquela sala disparada e desaparecer, e só voltar a aparecer quando tudo estivesse resolvido, mas sabia que não podia fazer isso…seria uma cobarde! Afinal de contas não estava a acontecer nada de mais…nada mesmo…só estava a ser censurada pela turma em peso, e nem sequer sabia qual era o motivo de tal condenação! Era só e apenas, aquilo que Raquel mais temia que acontecesse!
O tempo da aula passou como se também ele quisesse condena-la. Quando finalmente tocou, Miky tratou de ser a primeira a sair da sala, logo seguida de Tiago. Tinha sido ignorada a aula inteira, não conseguiria aguentar muito mais tempo sem ter um ataque de nervos! Foi para a parte de trás da escola e só ai percebeu que Tiago vinha atrás dela…Teria sido algo muito agradável falar com Tiago, se, Raquel não receasse perder aquele amigo também!
- Estás bem? – Perguntou Tiago.
- Estou… - respondeu Raquel no que era apenas um sussurro. Não conseguiu erguer a cabeça, com medo de ver que já não havia aquele olhar doce, que afastava os problemas da sua cabeça, é que apenas a deixava pensar, no que acontecia naquele preciso momento…
- Nota-se que estás óptima…até foi por isso que perguntei se estavas bem… - declarou ele, ao que Raquel percebeu que Tiago deveria estar na mesmo situação que ela, e que iria encontrar o olhar terno, que costumava ver quando o olhava.
- É…por causa, do que aconteceu de manhã… - confessou Raquel – eu detesto que elas façam aquilo!... A Bia e a Lua sabem perfeitamente que eu prefiro que elas digam logo tudo a que se chateiem comigo, sem eu saber o porquê!... Como é que eu posso pedir desculpa por algo que supostamente fiz, mas que não sei qual é o mal de o ter feito!
- Pois…não sabes mesmo porque é que o pessoal está assim? – Perguntou ele.
-Não, elas simplesmente ignoraram-me, e quando não o faziam passavam o tempo a mandar boquinhas do tipo: “Pensei que fosses minha amiga. Soube a morango ou a mentol? Foi melhor do que o do Leo?...” – declarou Raquel quase histérica – Fazes alguma ideia do que estavam a falar?
- “Soube a morango ou a mentol?!” – Repetiu Tiago, com ar de gozo, ao que Miky não se conteu em rir. – Queres ir dar uma volta? – Propôs Tiago mudando de assunto.
- Sempre… - Aceitou Miky. A única coisa que queria naquele momento era esquecer-se do que ouvira e vira na aula. A aula de matemática passou mais depressa do que a de área de projecto e de história, mas nem por isso a ajudou muito, porque apesar de já não estar ao pé das supostas amigas, de vez em quando ainda conseguia ouvir as bocas que estas mandavam, e tornava-se cada vez mais difícil, bombardeá-las com perguntas das quais não queria saber resposta, queria apenas tirar aquele peso que sentia por não ser capaz de confrontá-las. A última aula do dia, foi sem dúvida a que apesar de tudo ainda foi mais facilmente suportada. Era uma aula em que a turma estava dividida por turnos, e por isso os comentários já quase não existiam, pois Bia fazia parte do outro turno. E para grande felicidade a professora decidiu fazer experiencias, o que não deixou a Miky muito tempo para pensar em desastres, para sua grande sorte… Ela e Tiago montaram em conjunto um circuito eléctrico, no qual constavam, uma pilha, um multímetro, uma lâmpada, fios de ligação como é obvio, e no qual experimentaram vários materiais para saber quais deles eram bons e maus condutores. Foi a primeira aula em que tinham estado no laboratório, e até nem tinha corrido assim tão mal, contando com as expectativas de Raquel, em relação ao facto de o Júlio por fogo à escola! Quando tocou, Raquel nem queria acreditar que 90 minutos tinham passado tão depressa, e juntamente com Tiago foram para o portão da escola. Caminhavam de cabeça baixa, ambos consumidos por um sentimento de culpa que não sabiam a que se devia, e apesar de não saberem qual o motivo da manifestação dos colegas desse dia, ambos desconfiavam de algo, mas parecia não fazer sentido! Parecia faltar a peça principal! Sabiam que não lhes adiantava estar assim, a resposta não cairia do céu… E se queriam descobrir o que se passava, não podiam agir como dois mudos, que não tem qualquer meio de comunicação. Foi Tiago que tomou iniciativa:
- O que vais fazer hoje à tarde?
- Mmm – pensou Miky, a verdade é que não tinha planos nenhuns para essa tarde, era como se a imaginação lhe tivesse sido roubada! - Não sei…
- Então…e se… - Principiou Tiago – passasses por minha casa…podíamos estudar para os testes que ai vem? – Propôs um pouco duvidoso, não do facto de querer realmente fazer aquilo naquela tarde, mas sim da resposta de Raquel. Esta demorou um pouco a traduzir tanta informação para a sua cabecinha: Tiago queria que ela fosse para casa dele…estudar. O que poderia haver de mal nisso? Nada? Mas Raquel sabia que o seu irmão não iria deixar passar aquilo em branco, mesmo assim, aceitou, era sem dúvida por um bom motivo, iriam estudar para História e Inglês, mais nada! O resto do caminho foi passado a falar nas aulas e a contar patetices que já lhes tinham acontecido, e quando Raquel chegou a casa, já Ricardo lá estava.
- Olha, o Mateus vem para cá à tarde… - informou – portanto, não faças asneiras – declarou ele na brincadeira.
- Ah… – Raquel não sabia como haveria de dizer aquilo… - Eu não estou cá… - Ricardo fez uma cara de quem não percebia nada – vou para a casa de um amigo…
- Amigo?? E… esse amigo…assim, só, por acaso não é o… Tiago? – Era incrível, sempre que Raquel não queria que Ricardo soubesse algo, ele descobria quase imediatamente! Fez uma careta má e foi comer.
- Então? – Perguntou Ricardo.
- Então o quê? – Retribuiu Raquel.
- Ah, a menina já deve pensar que é muito grande! Ainda me tens de dar uma explicação plausível para eu te deixar sair de casa! Sabes que os irmãos mais velhos têm de tomar muito bem conta das maninhas! Hoje em dia há muitos raptores por aí a fora! – Gozou ele. Raquel limitou-se a rir e a abanar a cabeça. – Olha que eu não estou a brincar minha menina… Vá desembucha lá, o que é que vocês vão fazer? – Perguntou com obvia intenção de dar a entender que estava mais curioso do que aquelas velhas que sabem a vida de toda a gente.
- Vamos estudar, mais nada! Tem lá calma, ou queres que eu te comece a perguntar que trabalho de grupo tão grande é que tu tens a fazer com a Carla? – Perguntou Raquel a picar o irmão. Este fez cara de mau, mas depois desatou a rir…
- Sabes como é…és a mais nova…és rapariga…não te pode acontecer nada…e não vá o Tiaguinho, ter ideias estranhas… - Brincou ele ao que Raquel fez um sorriso sínico – vá, não fiques assim. Mas agora a sério… Eu vou passar por lá de cinco em cinco minutos, já aviso! – Miky fez uma careta escandalizada. Sabia muito bem que o irmão não se importava nada que ela fosse ter com Tiago, e por isso não ficou aborrecida com o rumo da conversa. Foi comendo com alguma dificuldade, devido aos engasgos, derivados da conversa parva de Ricardo, arrumou a loiça, e já ia a sair de casa quando o irmão voltou a interrompe-la:
- Isso é que vai ser um estudo! Sem livros, nem nada! Pois…é não é?
- Esqueci-me!
- Sim claro, numa tarde em que vais estudar, esqueces-te da coisa que menos probabilidade se tem de esquecer… - gozou ele.


'"Bia'"...

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