quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pantufa!

Tudo se tornou escuro, foi então aí que percebi que nada havia a fazer!

Chegou e trouxe a alegria com ELE… Era tudo novo, ELE era novo, só pensava em brincar, tentou criar logo amizades, mas eles não queriam!
Entretanto, um cedeu… Tornou-se mais criança do que as próprias crianças! Começou a gostar do «novato», finalmente! Brincavam, corriam, faziam estragos… (Os dois!)
ELE estava esganado, comeu, comeu, comeu que se fartou… A sua barriga inchou de satisfação, mas mesmo assim ELE não parava de comer…
Não saía de casa, eu não queria! Não queria que ELE aprendesse a seguir os passos dos outros.

Não podia perder aquela estrelinha que me tinha voltado a preencher!

Que me alegrava os dias, que brincava comigo, que corria comigo, que me dava dores de cabeça às vezes, mas mesmo assim me fazia rir acartando tudo o que via de um lado para o outro; por vezes escondendo tudo!
Chegou mais um «caloiro» e ELE metia-lhe medo assim como os outros, embora sem essa intenção… O «caloiro» perdeu o medo e aprendeu a gostar deles…

ELE tomava conta do «caloiro», brincava com ele, puxava-o atrás dele arrastando-o…

Até a comida dele comia (grande amigo) mas o «caloiro» não se importava!
ELE foi uma única vez ao rio comigo, fomos á água, ficou com frio e adormeceu ao meu lado, na minha toalha, comeu comigo assim que acordou (cheio de fome como sempre)!

Tinha tudo de bom, uma casa, amigos, família, carinho, mimos, AMOR!
Eu era FELIZ com ele, ADORAVA-O! Apeguei-me muito, muito, mesmo muito a ELE!
Mas como a felicidade não se pode completar comigo!
A vida encarregou-se de me tirar o MEU TESOURO! Levou-me o MEU MENINO! FOI-SE!
O meu ORELHUDO, o meu GORDINHO, O MEU PANTUFA
Sim, o MEU CÃO! Não era um simples cão, era O CÃO! Aquele, o tal, o ESPECIAL!



Pantufa: Onde quer que estejas NÓS nunca nos vamos esquecer de TI! [Família Antunes!]
(Mas eu sei que estás bem entregue, no céu, onde tu pertences, sem dúvida!)

[03.09.2009 - 12.10.2009]

Assinatura: Andreia Antunes! [Miky]

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pacto...







- Raquel! Raquel! Espera! – Gritou Tiago, mas ela já tinha os phones nos ouvidos e já não o ouvia, Tiago correu atrás dela, e quando a alcançou tocou-lhe para que esta parasse: Aquele toque quente, e macio sobressaltou tanto Raquel que ela saltou para o lado e deixou cair tanto o mp3, como o telemóvel. – Desculpa, não queria assustar-te, chamei-te mas não me ouviste!
Raquel recompôs-se e apanhou as coisas à pressa, e depois voltou a caminhar sem dizer uma palavra, até que deixou de aguentar o silêncio:
- Pensei que não viesses… - Começou ela.
- O quê? Que não vinha para casa?! Claro que venho, venho todos os dias, sabes bem disso! – Declarou ele, surpreendido pela pergunta.
- Não! Não era vires para casa ao que me referia! Referia-me a de manhã…a ires buscar-me a casa…quer dizer depois daquilo que aconteceu ontem…pensei que… - Raquel não conseguiu acabar a frase, sentia um nó na garganta de cada vez que pensava naquele assunto… Talvez por ainda não acreditar que realmente acontecera…talvez por não querer ter de admitir, mesmo que inconscientemente de que gostara do…beijo.
- Ah…Referes-te a esse vir. – Tiago não o pergunto, limitou-se a afirmar, e ainda mais, não estranhou estarem a falar de um vir tão distante: para eles.
- Desculpa… Estive um bocado…aérea hoje, e, bem não dei pelo passar do tempo… - Confessou Raquel de cabeça baixa.
- Na verdade, eu não era para te ir buscar a casa… - Começou Tiago hesitante. – Esperei que saísses de casa, e talvez te apanhasse pelo caminho, mas, tu nunca mais saias…e tanto o teu irmão como os teus pais já tinham ido embora. Esperei mais um pouco, mas os nervos e a preocupação, consumiam-me e tornavam cada vez mais difícil não bater a tua porta, para ver se estavas bem. Acabei por desistir. Tive medo que te tivesse acontecido alguma coisa, e por isso fui te buscar…foi por isso que não fui tão cedo como costumo ir…alias nem era para ir! De certa forma, tenho tanto medo da tua reacção quanto ao…que aconteceu ontem como tu da minha! Não te quero perder por um deslize! És a minha melhor amiga! – Despejou ele. Miky despregou finalmente os olhos do chão, e a muito custo enfrentou o olhar de Tiago.
- Eu…desculpa…a culpa foi minha, não devia ter… - Precipitou-se Raquel, mas mal ela tinha começado a falar, já Tiago lhe puseram um dedo em cima dos lábios, para que ela não dissesse mais nada, e mal ela se calou voltou a tira-lo rapidamente. Entreolharam-se por instantes e depois Tiago retomou a conversa:
- E se… se aceitássemos o facto de que ninguém teve culpa? E… Não tentássemos culpar ninguém pelo que aconteceu? – Propôs, um pouco duvidoso. – Muito menos a nós próprios! – Acrescentou ao ver que Raquel iria regatear. Esta fez um ar carrancudo. Embora Tiago não conseguisse ler-lhe os pensamentos e saber se esta se continuaria a culpar pelo que acontecera, e nem a pudesse obrigar a não se culpar, parecia impossível para Miky desobedecer a um pedido vindo de Tiago! Por isso Miky abanou a cabeça em sinal de afirmação, contrariada consigo própria: queria puder gritar-lhe e dizer-lhe que ele não tivera culpa, e que ela é que merecia levar com as culpas todas, queria ter motivos para se zangar consigo própria, mas Tiago pareceu perceber o que ia na cabeça de Raquel:
- Por favor! – Pediu ele fazendo beicinho, ao que Miky desatou a rir, e o clima ficou menos pesado. Tiago sorriu satisfeito por ver que tinha tanto poder de persuasão sobre Miky, e ao ver que aquele assunto já tinha tido tempo de antena suficiente, mudou de “canal”: Amanhã queres vir comigo, com a minha mãe e o meu irmão dar uma volta?
Raquel fez uma cara de sofrimento: Vou para a casa da Bia… - confessou. – Era ela que estava a chamar-me ontem…e…veio cá para pedir desculpa pelo que disse, e pôs-se a dizer que tinha agido mal, que se nós alguma vês nos… beijássemos, que eu lhe diria… - e calou-se.
- Xii…Que mau.
-Pois, e ainda por cima fez-me aceitar ir para casa dela amanha, porque “me tinha de recompensar!” - Acrescentou Raquel de forma irónica. Tiago ficou um pouco pensativo mas depois voltou a falar com o seu tom brincalhão:
- Ao menos recebes uma recompensa! Olha para mim: pedem-me desculpas e mais nada!
- Pois…pois…mas preferia não receber! – Queixou-se ela.
- Então, mas ficas na casa da Bia até que horas? – Voltou a perguntar Tiago.
- Não sei, talvez 18h, no máximo 18:30h, isto se aguentar tanto tempo! Mas porquê?
- Se for só até essa hora podes vir connosco na mesma, aliás, eu acho que a minha mãe era para perguntar aos teus pais se eles queriam ir connosco. – Concluiu Tiago, mais para si do que para Raquel.
- Mas ir aonde? A essa hora? – Perguntou esta confusa.
- Vai haver uma exposição de esculturas de areia, numa praia mais para norte, a viagem é só meia hora, nem isso, nós costumávamos ir lá todos os anos. É muito giro e tenho a certeza de que os teus pais vão querer ir, normalmente depois jantamos lá. Mas só costumamos estar de volta lá para as duas da manhã. – Raquel arregalou os olhos ao ouvir a palavra “pais” misturada com o assunto, pelo que Tiago se desatou a rir. – Não te preocupes eu porto-me bem, não te vou fazer passar por menina indecente! – Brincou ele.
- Na verdade quem me preocupa mais não és tu, mas sim o meu querido irmãozinho! – Confessou Raquel, Tiago riu-se novamente, mas desta vez foi um sorriso cheio de carinho, não foi igual ao riso trocista que lançou quando momentos antes tinham falado da recompensa que Miky ia receber. Raquel voltou a acordar, para a realidade quando Tiago a puxou para si para se despedir com o típico beijo na testa, que no entanto não deixava de trazer novas emoções a Raquel de cada vez que se repetia.



"'Bia"'...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Upss...Imprevisto!!




Conversaram durante o que lhes pareceram ser alguns segundos, mas que na realidade foi meia hora:
- Estás a ver! – Dizia Tiago. – As coisas acabaram por se resolver quase por si próprias!
- Pois, mas não sabes o que me custou falar assim, para a Bia e para a Lua! – Contrapôs Miky. – Vais me dizer que foi a coisa mais fácil do mundo?
- Sim, já fiz coisas bem mais difíceis! – Mentiu Tiago num tom tão irónico que até um surdo perceberia que ele concordava com Raquel, e que apenas estava a gozar com ela. Com isto, Miky esqueceu-se do seu problema das proximidades e pôs se a fazer cócegas a Tiago, este, apôs uns momentos de completo riso, conseguiu pôr Miky ao chão e prendeu-lhe as mãos para que esta não pudesse continuar a fazer-lhe cócegas, estava, praticamente em cima dela, no entanto não a esmagava, porque conseguia suportar o peso do seu corpo todo nos joelhos, no entanto Raquel içou a perna e magoou Tiago sem intenção. Este perdeu as forças e de repente os seus rostos encontravam se a uma ínfima distância de milímetros, subitamente Raquel apercebeu-se de que tinha feito asneira, e foi ai que começou a sentir o chão a roda. Tentou desviar o olhar, mas não conseguiu, tentou arranjar forças para virar a cara, mas temia o que poderia acontecer se o fizesse. Tiago conseguia manter-se a uns milímetros de distância, porque continuava a segurar-se nas pontas dos dedos, mas ambos sabiam que essa força estava prestes a ceder, pois havia uma força muito maior que fazia com que Raquel e Tiago se aproximassem cada vez mais. Subitamente os seus olhares cruzaram-se, e perceberam que ambos ostentavam uma expressão de medo, pelo que poderia vir a acontecer. Algo surreal aconteceu, pois a lei da gravidade foi dar uma mãozinha a atracão de pólos opostos, e juntas conseguiram vencer Tiago e fazer com que os seus lábios tocassem nos de Raquel, nenhum condenou o outro por ter continuado beijo, e secretamente, nenhum queria que este acabasse depressa, mas aquilo que viviam, aquilo que sentiam era mais do que um sonho, mais do que um conto de fadas, era interdito, mas naquele momento, as leis, as normas, tudo deixou de fazer sentido, na terra só existiam duas pessoas, que naquele momento faziam aquilo por que mais ansiavam, mas que sabia ser o fruto proibido. Subitamente, ambos despertaram do sonho cor-de-rosa, e olharam um para o outro revoltados por saberem que não poderiam assumir o que mais queriam.
- Raquel! – Ouviu-se um grito. Ambos congelaram. Se alguém os tivesse visto, iria ser um grande problema. – Raquel, estás em casa? – Ouviu-se novamente. Ambos ficaram um pouco menos tensos, se quem quer que fosse estava a perguntar aquilo seria porque, não sabia de Raquel. Entreolharam-se desesperados, e ouviu-se novamente chamar por Miky:
- É melhor ires lá, eu também já devia estar em casa. – Acabou Tiago por dizer. Raquel lançou-lhe um último olhar de compreensão e foi ter com a sua visitante.
- Raquel! Pensei que não estivesses em casa! Ufa… - Suspirou Bia.
- Bia! O que é que fazes aqui? – Perguntou Raquel com um tom de voz que pretendia ser casual, mas que aos ouvidos de Miky lhe soou muito preocupado.
- Mmmm, eu… – começou Bia hesitante. – Eu acho que te devo um pedido de desculpas! – Raquel foi apanhada de surpresa com aquilo, e deixou de estar distraída passando a tomar mais atenção ao que Bia dizia: Afinal de contas, a culpa disto tudo é minha, e do meu estúpido egoísmo! Devia ter falado contigo antes, mas não! Palerma, fui logo contar tudo a Lua e pimba! A Turma inteira ficou a saber de uma coisa que nem se quer é verdade! Desculpa, eu fui mesmo estúpida, agi mal! Como se tu e o Tiago alguma vez pudessem ter alguma coisa! Como se alguma vez se pudessem vir a beijar, fosse por que razão fosse, vocês até evitaram isso em teatro! – Desabafou Bia mais para si do que para Raquel, mas aquilo apanhou-a ainda mais desprevenida do que tudo o resto: “Como se tu e o Tiago alguma vez pudessem ter alguma coisa! Como se vocês alguma vez se pudessem vir a beijar, fosse por que razão fosse!” Raquel queria dizer algo a Bia para que ela não se sentisse culpada, queria faze-la entender que aquilo tinha sido apenas um mal entendido, queria apenas faze-la parar de falar, porque estava a começar a sentir uma enorme por saber que tinha de lhe mentir, tentou acalmar Bia mas parecia que tinha qualquer coisa entalada na garganta e não conseguia falar, Bia, ao perceber que Miky não lhe respondia, pensou logo que ela estivesse demasiado chateada e que fosse fazer voto de silêncio, ao que começou novamente a pedir desculpas, até que Raquel conseguiu reagir:
- Não faz mal, a sério, já passou! – Tentou Miky dizer com um tom de confiança mas a única coisa que conseguiu foi um murmúrio, felizmente Bia percebeu o sentido que Miky tentara dar as suas palavras e logo acrescentou:
- Olha este fim-de-semana, queres ir para minha casa? Para te poder recompensar pelo que fiz? – Perguntou Bia.
-Não é preciso nada! – Começou Raquel por tentar escapar, mas Bia começou a fazer beicinho, e Miky acabou por concordar. Depois de combinarem tudo, Bia despediu-se e foi se embora, e Raquel quase correu para casa, não fosse aparecer mais alguém que a fizesse sentir mal, com os discursos sentimentalistas de desculpas. Em alturas normais Raquel até conseguia lidar bem com isso mas nesse momento, não estava com a disposição devida, entrou no quarto atirou a mala para cima da cama, e começou a andar as voltas:
- Estúpido parque, estúpida árvore, estúpida relva, estúpida cabeça, não sabias ter-te desviado? Estúpida boca: para que é que existes? Estúpido rapaz, como se não te conseguisses aguentar mais tempo de maneira a arranjar uma solução! Estúpido Beijo! – Despejou Raquel furiosa, no fundo ela sabia que nada daquilo fazia sentido, ninguém tinha culpa, mas era mais fácil culpar os outros! Raquel atirou-se para cima da cama e deixou-se ficar lá a arranjar todos os insultos possíveis para o que tinha acontecido, mas acabou por desistir porque por mais que tentasse todos os insultos que arranjava para Tiago pareciam-lhe injustos, no fundo ela não o culpava, estava apenas furiosa por Bia ter ido logo naquele momento falar com ela!
Sexta-feira amanheceu sombria, e Raquel não previa que o dia fosse melhorar, iria ter um teste de Historia, e embora tivesse estudado o suficiente para tirar uma boa nota, parecia-lhe que o dia em que estudara já fora há demasiado tempo, e temia não se lembrar de nem metade da matéria! Mas o maior medo de Raquel era definitivamente, o momento em que voltaria a ver Tiago, como é que ele reagiria? Não fora de maneira alguma culpa sua o facto de aquilo ter acontecido, mas…e se Tiago achasse que sim? E se perdesse o amigo, o Único amigo com que agora contava? Miky abanou a cabeça e tentou tirar aquele pesadelo da cabeça, mas isso foi impossível, vestiu-se a pressa, e foi comer qualquer coisa, tentou distrair-se ao preparar o seu pequeno-almoço, mas quase ia deixando queimar a torrada, porque aumentara demasiado, tanto a temperatura, como o tempo.
Como tinha quase a certeza de que naquele dia teria de ir sozinha para a escola, deixou-se estar mais um bocado, aconchegada no sofá, com a televisão ligada, a passar os canais, quando se fartou de carregar no botão de seguinte, parou e deixou onde estava: canal dois, definitivamente não era a melhor coisa que podia ter calhado na rifa, mas pelo menos não falava em beijos nem em mentira: se é que se podia chamar mentir ao facto de Miky não ter contado o que acontecera entre ela e Tiago uns segundos antes de Bia aparecer. Tentou concentrar-se no que o Noddy dizia, mas naquele momento mais do que em todos os outros, parecia um completa parvoíce estar a ver aquilo! Já passava das oito horas e Raquel sabia que tinha de se ir embora, não havia mais nada pelo que esperar, mas estava tão bem ali, sentada no sofá, quente, (apesar de ser apenas por fora), sem ninguém para a chatear. E ali podia gritar, pular, dizer o que quisesse, pensar o que quisesse, sem fazer expressões estranhas… Estava tão absorvida nos seus pensamentos que se sobressaltou quando ouviu bater à porta. Levantou-se a custo, um pouco curiosa para saber quem estava do outro lado da porta, mas com a certeza de não ser nada de importante, abriu a porta, e quando viu quem estava do outro lado, recuou dois passos, esfregou os olhos, para ter a certeza de que estava a ver bem, e deixou escapar um breve: Ah, de espanto. Nunca esperara, voltar a presenciar aquilo, especialmente depois do que acontecera no dia anterior, mas no entanto, lá estava ele - Tiago – do outro lado da porta, que embora ostentando um olhar receoso não deixava de ser o rapaz mais lindo a face da terra, para Raquel, embora ela deixasse esse tipo de pensamentos para o seu subconsciente. Quando Tiago finalmente ergueu o olhar, entreolharam-se, estavam ambos com demasiado receio para se cumprimentarem, pelo que Raquel foi buscar a mala, e pouco depois já seguiam rumo à escola, no entanto ao contrário dos outros dias, não trocaram uma única palavra, porque embora o silêncio fosse deveras constrangedor, nenhum deles sabia ao certo qual a reacção do outro quanto à conversa que teriam de ter.
O dia passou pesaroso, o teste de história pareceu 10 vezes mais difícil do que de costume, e a aula de ITIC, parecia nunca mais ter fim, no entanto a aula de matemática foi a pior, não se sabia bem se por ser a última aula e tanto Raquel como Tiago, estarem mortos por ter de deixar de fingir que a mentira não se tornara verdade, ou pelo facto de essa aula ser a que tinha exercícios mais difíceis, o que os obrigava a estar mais presentes, tendo de fazer um esforço para não pensarem noutra coisa, ou ainda se era pelo facto de estarem juntos, e naquela precisa aula terem de fazer uns exercícios em grupos. Quando finalmente tocou, toda a turma suspirou de alívio por aquele inferno ter acabado e saíram da sala o mais depressa possível, antes que o professor se lembrasse de marcar ainda mais trabalhos.
Miky quase corria para casa, estava sozinha e por isso não tinha de acompanhar o passo de ninguém, regra geral, todas as pessoas que fossem com Raquel para casa a pé, tinham um passo mais lento, e por isso ela até estranhara, voltar a andar tão depressa. Tirou os phones e o mp3 da mala, para se entreter com alguma coisa no caminho para casa, e para não começar a pensar no dia anterior!




"'Bia"'...

O Jogo...





- O que tens? Estás a tremer! – Assustou-se Raquel.
- Sabes o que é frio? – Perguntou ele, nunca escondendo aquele sorriso maroto. Raquel também sorriu.
-Sabes o que são casacos? – Ripostou esta, ao que Tiago lhe pôs a língua de fora em forma de desafio. Raquel respondeu-lhe com um ataque de cócegas, mas ele, para não variar, foi mais rápido, e conseguiu prende-la, num abraço, impedindo-a de se mexer e ganhado, por isso, mais uma batalha. Pouco depois largaram-se para que não fosse ser o professor de Educação física a encontra-los, e a ralhar-lhes. Cinco minutos depois já estavam todos dentro do ginásio e faziam o aquecimento, enquanto o professor fazia equipas de dois, para que depois pudessem jogar badmington. Para sorte de ambos, eles tinham ficado na mesma equipa. Mas, em contrapartida, iriam jogar contra a equipa de Bia e Lua. O apito soou e começaram vários jogos ao mesmo tempo. Tiago lançou o volante, e este voou em direcção a Lua:
- Sabes Bia, Badmington e como a vida, mesmo que estejas a jogar com amigos, eles iram sempre lutar por te por abaixo! – Principiou Lua.
- Estás a querer insinuar alguma coisa? – Perguntou Tiago exaltado pela maneira como Lua falara.
- Talvez sim, talvez não. – Ripostou Lua.
- Se a carapuça serviu. – Continuou Bia, e mandou com a raquete com toda a força no volante. Raquel recuou um pouco e acertou em cheio no volante, e este mudou imediatamente de direcção.
- Se tens alguma coisa a dizer, ao menos diz logo, estás a ser muito corajosa a mandar bocas, ao menos diz-nos o que se passa! – Replicou Miky.
- Pelo menos somos mais corajosas do que tu! Pensei que se gostasses da mesma pessoa que nós que serias sincera! – Acusou Lua. Mudando a direcção do volante para o campo de Raquel e Tiago.
- E seria! Se gostasse da mesma pessoa que tu… o que não é o caso! – Lançou Miky, e o volante mudou novamente de direcção indo tão de força que nem Lua nem Bia o viram e por isso Raquel conseguiu marcar ponto para a sua equipa. Tiago voltou a servir, e desta vez o volante foi na direcção da Bia:
- Mmmm… Então tu beijas as pessoas por simples e puro gozo…- Ironizou Bia. Mandando uma pancada no volante.
- Do que é que tu estas para ai a falar? – Perguntou Tiago, devolvendo o volante a Bia que lhe mandou novamente uma pancada desta vez mais forte.
-Sim, ou vão-nos dizer que já nem sequer se lembram? – Perguntou Bia irada.
- Mas do que é que nos haveríamos de lembrar? – Perguntou Raquel, já sem paciência para aqueles joguinhos de palavras e quase falhando o volante.
- Não sei, talvez do beijo que deram! – Acusou Bia finalmente, projectando o volante. Tanto Raquel como Tiago ficaram estupefactos ao descobrirem que tinham dado um beijo, pelas observações de Bia, e por isso foi a vez de Lua servir. Tiago recuperou mais rapidamente do choque, e conseguiu evitar que Lua fizesse ponto, e perguntou logo de seguida:
- Mas que beijo? Nós nunca nos beijamos! – Escarneceu.
- Eu vi! – Disse Bia como um criancinha - À frente da primária? Faz-vos lembrar alguma coisa?
- Faz, eu ia caindo e ele agarrou-me mais nada! Mas já agora, deste para espia, foi Bia? – Ralhou Miky, lançando o volante na direcção da vítima.
- Ah boa, agora estás tão ocupada com o teu novo amigo que nem sequer te lembras onde moro? – Disse Bia incrédula.
- Esta bem, ela pode-se ter esquecido, onde moras, por causa desta confusão, mas ainda esta por explicar o beijo que não demos e que tu dizes que viste! – Entreviu Tiago, dando um salto e projectando o volante para o chão do campo do inimigo.
-Mas vocês estavam tão próximos! É impossível não se terem beijado! – Afirmou Bia desesperada.
- Pois para a próxima talvez fosse melhor conferir antes de espalhares rumores, podes fazer uma asneira enorme! – Concluiu Miky, marcando mais um ponto para a sua equipa. O apito soou e os jogos acabaram. Miky sentia-se traída, destroçada, e abandonada, mas sabia que não o estava. Tiago estaria sempre a seu lado para a apoiar, pelo menos por enquanto. O professor foi perguntando quem tinha ganho, e foi ai que Miky percebeu que tinha feito um grande progresso quanto ao estado da sua amizade com Bia, pois esta, parecia demasiado desanimada, para que aquilo se devesse apenas ao jogo de badmington, aliás Bia nunca fora má perdedora e foi a sua resposta que deu luz ao sorriso que apareceu no rosto de Raquel:
“ A Raquel e o Tiago ganharam, em todos os jogos da maneira mais justa possível, nós é que deveríamos voltar a ler as regras.” Foi o que Bia respondeu, era obvio que tinha percebido que errara e que Raquel é que devia ter motivos mais do que suficientes para se chatear com ela. Depois de tomar banho, Raquel foi almoçar a cantina da escola e pouco depois foi se juntar com Tiago que já estava junto do pessoal da turma. Pelos vistos, Raquel tinha perdido alguma coisa, pois não se lembrava de os colegas terem percebido que estavam errados a menos que tivesse acontecido algo entretanto.
- Desculpem lá, nós não devíamos ter feito isto, mas parecia bater tudo certo! – Dizia Leo, quando Raquel lá chegou.
- Não faz mal! – Garantia Tiago. – Quando é que vocês vão parar de pedir desculpas?!...é que já irrita! A sério!
Miky fez uma careta e perguntou:
- Perdi alguma coisa?
- Muita coisa – confirmou Tiago o rir. – Já está tudo esclarecido!
- Iupii. – Ironizou Raquel, ao que todos se riram. Miky também se queria rir, mas sentia que aquela historia ainda não tinha acabado, embora agora todos estivessem bem, embora tudo se tivesse resolvido, pressentia que viriam problemas bem maiores, e que estes não se demorariam a chegar. Na aula de teatro, conseguiram finalmente ensaiar a peça toda, passando as partes dos beijos: Tanto Raquel como Tiago achavam que o tema de eles se terem beijado ainda estava muito fresco para agora o fazerem mesmo, apesar de ser em teatro, iria com certeza dar barraca.



* * *


Seguiam calados, pelo constrangimento de terem feito de par romântico mesmo que num teatro, preocupados, pelo que se seguiria, mas seguros de se terem um ao outro para se apoiarem, mas seria sempre assim, uma amizade tão fresca, poderia acabar com um pequeno terramoto, se dessem um passo em falso, poderia faze-los cair no precipício. A única base da sua amizade era acreditarem um no outro, e isso poderia ser facilmente destruído, e depois, o que aconteceria? Já, passavam das cinco horas, e normalmente, eles seguiriam para casa, mas qualquer coisa, não se sabe bem o quê, fê-los ir para o parque. Tiago foi o primeiro a chegar e por isso deitou-se com a cabeça encostada ao choram, Raquel por sua vez achou mais seguro ficar em pé, para que não voltasse a ter tonturas.




"'Bia"'...

Contínua inoportuna... XD





- Raquel!
- Olá, tudo bem?
-Sempre… E agora ainda melhor! – Respondeu Mateus, ao que Raquel fez um cara de quem não percebeu, no entanto Mateus não se deu ao trabalho de explicar – Dás-me o teu mail?
- Sim… raquel_rsa@hotmail.com
- RSA? O que significa? – Perguntou Mateus curioso.
- Raquel Santos Almeida, o meu nome. – Explicou ela.
- Ah, pois… Queres vir para ao pé de nós? O teu irmão estava mesmo para te ir buscar a casa do teu amigo. – Explicou ele.
-Está bem – concordou Raquel, no entanto houve algo na maneira como Mateus tinha proferido a palavra “amigo”, que ela não gostou nada. Quando chegaram a sala, Ricardo apresentava um ar zangado e paternalista, no entanto esta mascara caiu quando olhou para a cara da irmã.
- Eu não acredito! Mateus diz-me uma coisa, eu tenho cara de palhaça, ou alguma coisa escrita na testa que tenha piada? – Perguntou Miky na brincadeira, ao que Mateus não respondeu, e em vez disso foi Ricardo a falar:
- Já viste as horas, para a próxima vou lá e trago-te, 17 horas não são 17:15!
Raquel atirou uma almofada contra o irmão: Pareces agora a mãe! Tu também nunca chegas as 17 quando vens da casa da Carlinha!
- Pois mas eu sou mais velho! - Ripostou, e outra almofada lhe bateu na cara, mas desta vez foi Mateus o autor do crime. – Olha, olha, grande amigo que este me saiu! Preferes defender a minha irmã a me defender a mim? – Ironizou Ricardo, ao que Mateus respondeu com um encolher de ombros, entreolharam-se, e passado um momento de silêncio absoluto só se houve um grito do Mateus: MOCHE AO RICARDO!;
Raquel teve apenas tempo para ver Mateus atirar-se para cima de Ricardo, ambos a caírem no chão e logo a seguir atirava-se também para cima de ambos, depois pouco ou nada percebeu, por causa da confusão de braços e pernas que estavam juntas e só se deu conta de que estava cercada e que ia sofrer um ataque de cócegas quando as sentiu, e quando finalmente se conseguiu levantar, começou a correr atrás do Mateus para lhe bater pelo que tinha feito. Pouco depois este teve de se ir embora, e Miky teve de aturar as imensas, mas mesmo imensas perguntas do irmão sobre a tarde passada em casa de Tiago, e para grande felicidade dela a sua mãe chegou pouco depois e o interrogatório parou. Depois do jantar Raquel foi para o seu quarto para fazer a mala para o dia seguinte.
* * *
No dia seguinte Raquel foi acordada pela música de que menos gostava – “Ao ritmo do flow” o que não contribuiu muito para o estado de Humor, não sabia porquê mas tinha um pressentimento de que aquele dia seria péssimo, não só por a tarde do dia anterior ter sido espectacular, mas também por achar que apenas nos contos de fadas é que depois de uma tarde tão boa o dia seguinte poderia ser bom. O estado do tempo também não ajudou muito, as nuvens carregadas ameaçavam rebentar a qualquer momento, e escondiam o sol, que parecia não querer aparecer naquele dia. Quando saiu de casa deparou-se imediatamente com Tiago e perguntou-se a si mesma se este estava à sua espera há muito tempo…
Quando chegaram a escola, deparar-se logo com Bia e Lua num dos seus passeios diários, e foi aí que Raquel percebeu porque se sentia tão apreensiva quanto aquele dia. Tinha se esquecido completamente de que os colegas a estavam a ignorar a ela e a Tiago por um motivo que era desconhecido a ambos. Infelizmente Miky sabia que aquele assunto não podia esperar mais, e que teria de ser resolvido naquele dia, coisa que Tiago também percebeu:
- Podemos tratar disto já…Temos 45 minutos livres. – Sugeriu Tiago, mas Raquel abanou imediatamente a cabeça. Sabia que o assunto envolvia ambos, mas não queria que Tiago estivesse com ela quando falasse com as amigas. – Ambos estamos envolvidos, sabes bem disso! – Reclamou Tiago como que lendo o pensamento de Miky.
- Eu sei. Mas…não me apetece discutir logo de manhã… - mentiu Raquel, na verdade ela até queria despachar o assunto. Mas naquelas circunstâncias, não. Seguiram na direcção oposta à de Lua e Bia e refugiaram-se num gabinete, onde podiam falar a vontade:
- Temos de falar com elas! – Lançou Tiago.
- Tenho de falar com elas! Tu não tens nada a ver com isto. Não fizes-te nada de mal. – Contrariou Raquel. Ele abanou a cabeça em sinal de discordância e aproximou-se mais de Miky agarrando-lhe em ambas as mãos para que esta o ouvisse e não pudesse fugir:
- O problema e de ambos, aliás isto deve ser tudo culpa minha! Por minha causa é que vocês começaram a chatear-se. Como é que podes dizer que não fiz nada quando sou eu a fonte dos problemas. – Irritou-se ele. A princípio Miky ficara atordoada, como sempre, pela proximidade a que estava de Tiago, mas as suas palavras fizeram Raquel revoltar-se. Era obvio que ele não era a fonte do problemas… Como poderia ser?
- Ora, não te culpabilizes por algo que nem sabes o que é! – Ordenou ela.
- E tu sabes? Sabes tanto quanto eu! – Afirmou Tiago. Continuavam de mãos dadas, e agora estavam tão próximos que conseguiam sentir o batimento do coração um do outro. Miky olhou Tiago nos olhos e todos os seus argumentos se esvaíram. A custo desviou o olhar e tentou afastar-se dele, mas o segundo objectivo não foi bem sucedido pois Tiago agarrava-a com uma força colossal. – Fizeste tanto quanto eu…sabes tanto quanto eu…és tão culpada quanto eu…e por isso temos de resolver isto Juntos! - Continuou Tiago. Miky parou de se debater e acenou com a cabeça, não valia a pena discutir. Sabia que ia acabar por perder a razão. Mantiveram-se ali, de mãos dadas, um contra o outro, olhar fixo nos olhos um do outro e com expressões de compreensão e companheirismo, mais próximos do que nunca, no local em que menos provavelmente alguém os encontraria, ou pensaria em encontrar, no entanto, de repente a porta escancarou-se e a continua ficou estupefacta a olhar para ambos. Quando se aperceberam do que tinha acontecido Tiago largou imediatamente Raquel e esta afastou-se o mais que o pequeno gabinete o permitia.
- Já lá para fora, se não querem que faça queixa ao director! – Ralhou ela, e embora ambos não tivessem feito nada demais, cumpriram a ordem mantendo-se o mais afastados e sérios possível enquanto estavam ao alcance do olhar fulminante da contínua, mas quando viraram a esquina escangalharam se a rir, das coisas que aquela “mulherzinha” provavelmente tinha pensado que eles estavam a fazer. Tocou às 8:30h para entrada, mas eles tinha aulas apenas 45 minutos depois e por isso, foram para o bar, para se poderem reconfortar com um pouco de calor depois de uma conversa tão fria como escaldante. Quando chegaram ao bar viram logo a mesa em que a sua turma se encontrava, mas ninguém fez menção de os chamar para lá, pelo que nenhum deles fez questão de propor a hipótese de se juntar aos amigos. Foram para a mesa ao fundo do bar, ao lado do quiosque, e ficaram a olhar-se minutos sem fim, à espera que algum tivesse tema para conversa, a espera que algum interrompesse o silêncio que tanto incomodava um como o outro.
- Está na hora. – Acabou Tiago por dizer, quando chegou a hora de ir para a aula. Se fosse qualquer outra aula Raquel tinha tido uma vontade enorme de se “baldar”, mas as aulas de moral eram sempre diferentes, sempre divertidas, e sabia que lhe faria bem ter um pouco de diversão naquele dia chuvoso. Quando entraram na sala de aula foram recebidos como sempre, com extrema exuberância e muito carinho, o que os fez sorrir, ao menos ainda tinham alguém que não os olhasse de lado, mal humorado. Depois de todos terem entrado, o professor explicou-lhes o jogo que iriam fazer naquele dia: eram uma espécie de corrente eléctrica, e um de deles era o gerador, e apenas esse podia mudar o sentido da corrente, alguns eram aparelhos eléctricos, o que permitia saber o sentido da corrente, e uma pessoa ficava de fora e tentava descobrir quem era o gerador. Foi um jogo divertido, acima de tudo porque, durante o tempo em que se camuflaram de objectos ninguém fez comentários nem ninguém olhou de lado quer para Miky quer para Tiago. E o facto de o Joel (aquele pateta em pessoa da turma, que adorava galinhas) ter feito de maquina de lavar, de uma maneira ridícula. A aula passou tão depressa que nem deu tempo para se rirem em condições, e quando deram conta disso, já estavam lá fora, expostos à gélida chuva, que caia sobre eles como se os quisesse magoar. A aula de português foi bem menos interessante, mas o que mais assustava Miky era o tempo que teria de passar no balneário sem a presença reconfortante de Tiago. Inspirou fundo antes de entrar, e depois disso não voltou a tirar os olhos do chão até voltar a sair daquele cubículo. Saiu o mais depressa que pode do balneário feminino e foi para ao pé do ginásio, onde felizmente estava Tiago, já equipado:




"'Bia"'...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

"Ouve o meu Coração!"...


Miky revirou os olhos e fez ouvidos moucos. Era definitivamente uma patetice digna da maior palhaça a superfície da terra. Pegou nos livros e cadernos que correspondiam as disciplinas a que iria ter teste na semana seguinte e saiu de casa. Era estranho, o facto de se dirigir pela primeira vez na direcção daquela pequena casa, naquele pequeno canto, naquela pequena rua, pois durante tantos anos Raquel nunca se tinha dirigido aquele sítio, era como se tivesse estado invisível durante os catorze anos que passara ali, desde que nascera, e que finalmente, com a chegada de Tiago, Miky passasse a conseguir ver, não apenas olhar, era como descobrir coisas novas em recantos já mais do que revistados e investigados. Em muito menos tempo do que o que esperava, Miky alcançou o outro lado da rua, conseguido ultrapassar a barreira que provavelmente a impedira de ir ali até aquele momento. Levantou a mão, para bater à porta, mas deteve-se. Seria aquilo boa ideia? Afinal tanto Lua e Bia gostavam, ou melhor, sentiam-se atraídas por Tiago… Mas por outro lado… Já decidira que ninguém a impediria de manter uma amizade com Tiago, não podia desistir agora…Quando, finalmente a discussão na sua cabeça acabou, decidiu bater à porta, mas alguém se antecipara, e já abria antes, sequer de Miky ouvir o som da sua mão a bater na porta, seria aquilo telepatia? Ambos sorriram ao constatar aquele cómico facto e Tiago deu um passo atrás, para que Raquel pudesse entrar. A pequena casa que por fora aparentava ser, não tinha nada a ver com o interior, um amplo hall de entrada, com um tapete de Arraiolos foi a primeira coisa que Miky viu, seguiram pela corredor, passaram por um porta que pelo pouco que Raquel viu ia dar a cozinha, e por outro que ela conseguiu claramente ver que era a casa de banho, (não são todas as divisões da casa que tem um sanita!), passaram por outra porta, que Raquel não sabia onde ia dar, e ao fundo do corredor, havia um cruzamento. Tiago seguia em frente, e por isso era um bocado difícil Raquel perder-se, era só preciso seguir um monumento ambulante. Quando abriu a porta um brisa suave fez o cabelo de Raquel voar para traz, a janela do quarto estava escancarada, e por causa do vento (nada mais), Tiago viu-se obrigado a fechar a porta do quarto, enquanto isso Miky observava o que a rodeava…Era totalmente diferente do quarto do irmão. O quarto de Tiago: arrumado, com vestígios claros de um apaixonado por musica e filmes, e com o portátil exemplarmente colocado em cima da secretaria, não fazia em nada lembrar o quatro de Ricardo: completamente desarrumado. Era um quarto pequeno, no qual Tiago conseguira colocar mais coisas do que qualquer outra pessoa conseguiria, e mesmo assim sobrava suficiente espaço para fazer uma guerra de almofadas. A cama de solteiro, com três almofadas (uma verde uma azul e outra cor de laranja) sobre o edredão, também azul, encostada a uma parede com uma estante por cima, cheia de livros, CD’s, DVD’s, entre outros, ocupava uma ínfima parte do quarto. O armário encaixado na parede, quase passava despercebido a Miky, a secretaria encostada a outro canto, a televisão segura em suportes especiais que a faziam estar quase no tecto, e a janela, enorme, do lado oposto ao da porta, e nesse canto da parede, estava repousada uma guitarra, estrondosamente linda, como que desafiando o dono para mais uma tarde de musica.
- Senta-te… - Propôs Tiago. Miky não pensou duas vezes, e obedeceu-lhe imediatamente. – Então…por onde começamos?
- Mmm… Geografia? Pode ser?
- Ya, bora lá… - dito isto, Tiago levantou-se de um salto e foi buscar os livros e cadernos da disciplina. – Então os objectivos para o teste são… - estudaram meia hora sem interrupções de geografia, e quando ambos tinham a certeza de já não ter duvidas e saberem a matéria relativamente bem, Tiago propôs fazerem os trabalhos de casa de matemática, que, como sempre eram imensos! Em cerca de 15 minutos ele conseguiu fazer todos os exercícios, mas Raquel precisou de um pouco mais de tempo para se desengonçar com o ultimo sistema de equação de 1º grau a duas incógnitas, e também de um pouco de ajuda, mas isso ninguém precisava de saber. Partiram para Historia, a ai foi Tiago que precisou de ajuda, pois a atenção que este prestava as aulas de história, era pouca ou nenhuma, na opinam deste, a historia era importante, mas para quê perder tempo a estuda-la quando podiam fazer descobertas novas, podiam ir mais alem, mantendo o conhecimento vindo do passado, mas não se prendendo a ele! Raquel concordava com ele, mas era apenas mais aquele ano que teria de estudar historia, pois não fazia tenção de ir para cursos que a contivessem, alias, Miky estava quase certa de que o seu futuro estava escondido nas ciências, mas mesmo assim não queria estragar a sua media por causa de uma disciplina ou outra que gostava menos! No fim de enumerarem todos os objectivos, mudaram de disciplina, e desta vez foi Tiago que escolheu, parecia que estavam a jogar um joguinho de crianças de 4 anos, uma vez escolho eu, outra vez escolhes tu…
A disciplina escolhida desta vez foi uma de que ambos gostavam e em que ambos eram bons, ou seja inglês. Uma disciplina que muitos da sua turma detestavam, ou por ser a directora de turma a professora de Inglês, ou porque não percebiam nada, etc. No entanto tanto para Raquel como para Tiago, o Inglês era algo simples, que não era preciso estudar para saber. Ambos o percebiam muito bem, por isso demoraram se pouco, e partiram logo para português. Quando finalmente acabaram de estudar, Tiago foi buscar algo para petiscar à cozinha, e Miky aproveitou para continuar a contemplar o quarto, desta vez dirigiu-se a janela: na parte de traz da casa havia um pequeno jardim com um baloiço feito com o pneu de um carro, algumas flores ordeiramente plantadas e mais ao fundo um quintal com árvores de fruto, couves batatas, alfaces, etc. Depois de ver tudo o que tinha para ser visto no jardim, voltou a sua atenção para o quarto novamente, viu os CD’s e DVD’s com mais pormenor, e quase se assustava quando Tiago entrou disparado no quarto.
- Parecia… - brincou este. Este pegou no comando em cima da secretaria e ligou o rádio. Miky voltou a sentar-se e ia para pegar num copo para por sumo, quando viu que Tiago se tinha esquecido de arrumar uma folha, e não fosse esta sujar-se, voltou-a para ver o que tinha escrito, a principio pensou tratar-se de um texto sobre alguma disciplina, mas depois percebeu que estava escrito como se fosse um poema, ia começar a ler e puff, o papel desapareceu-lhe da mão:
- Oh, vá lá deixa-me ler! – Pediu Raquel.
- Porque é que haverias de querer ler uma coisa destas? – Desvalorizou Tiago.
Raquel fez de conta que pensava em argumentos possíveis:
- Mmmm…porque foste tu que escreves-te…
- Ninguém te garante isso! – Contrapôs ele.
- É tua letra – reclamou Miky – continuando, porque sou cusca – Tiago não conseguiu evitar um sorriso – Oh, anda lá! Porque é que eu não posso ler?.... Diz mal de mim? – Ironizou esta. Tiago abanou a cabeça e voltou a entregar a folha a Raquel. – O que é? Um poema? Para quem? – Brincou ela.
- É… uma canção… - Acabou por confessar Tiago.
- Podes canta-la? – Perguntou Miky, esperançada. – Please!
- És impressionante, uma pessoa dá-te uma mão e tu queres logo o braço inteiro, se não for logo o corpo todo!
- Então isso quer dizer que cantas? – Perguntou Miky ignorando a insinuação de Tiago.
- Tenho outra hipótese? – Implorou ele. Raquel reflectiu um bocado sobre o assunto, embora já soubesse a resposta:
- Sempre posso passar o resto dia e por ai a fora a pedir-te – Propôs. Tiago voltou a abanar a cabeça e foi buscar a guitarra, enquanto Miky batia palmas feita histérica e perguntava se havia pipocas. Tiago riu-se e começou a tocar, só pelo instrumental, Miky já dava um vinte aquela música, numa escala de 0 a 20, então quando ele começou a cantar…uii… a escala de Raquel rebentou e ficou reduzida a cinza, não só pela voz de Tiago mas também pela letra da música:



Abro os olhos
Vejo o céu
Este é um daqueles momentos
Em que eu desejo ser eu

Paro o tempo
A pensar
Que neste momento
Seria bem melhor estar noutro Lugar
Que neste momento
Não te tenho aqui a cantar

Porque quando queremos viver
Temos de aprender
A perder
Mas tantas vezes é mais fácil fugir
Tantas vezes é mais fácil fingir

Ouve esta canção
Sou eu que estou a dizer
Ouve o coração
Escuta o que não queres ouvir
Diz-me o que fazer
Quando não estás aqui
Vive por viver
A vida, por ti

Ouve esta canção
Ouve o coração
Sou eu que estou a dizer
Escuta o que não queres ouvir
Diz-me o que fazer
Quando não estas aqui
Vive por viver
A vida por Ti!

Fecha os olhos
Pensa em mim
Devolves o sorriso
Que procurei por aí

É fácil sorrir
É fácil chorar
Difícil e ser
O que queres sonhar

Ouve esta canção
Sou eu que estou a dizer
Ouve o coração
Escuta o que não queres ouvir
Diz-me o que fazer
Quando não estás aqui
Vive por viver
A vida, por ti

Ouve esta canção
Ouve o coração
Sou eu que estou a dizer
Escuta o que não queres ouvir
Diz-me o que fazer
Quando não estas aqui
Vive por viver
A vida por Ti!




Quando terminou, Tiago pousou cuidadosamente a guitarra. E voltou a observar Raquel, esta permanecia boquiaberta, impressionada pelo que acabara de ouvir, no entanto Tiago parecia não perceber que Miky estava impressionada e não decepcionada:
- Eu sabia que não ias gostar! – Resmungou ele, ao que Miky começou a rir-se, e Tiago fez uma careta – disse alguma piada? – Perguntou confuso.
- Não…disseste foi uma grande asneira, como é que é possível não gostar da tua música! Está linda! Fantástica! Espantosa! Maravilhosa!
- Olha que eu começo a ficar convencido! – Avisou ele, também a rir – Mas agora a sério. Gostas-te mesmo?
- Ainda não deu para perceber que sim?... Não sabia que disfarçava tão bem! – Confirmou ela. – Qual é o nome, da musica? – Perguntou curiosa.
-Ainda não escolhi, pensei em “ouve esta canção”, mas acho que falta alguma coisa… tens ideias?
Miky pegou no papel e voltou a ler:
- “Ouve esta canção, ouve o coração”, ou, talvez se lhe quiseres atribuir um sentido mais romântico: “Ouve esta canção, Ouve o meu coração”? – Propôs pouco convencida.
- “Ouve esta canção, ouve o meu coração” – Repetiu Tiago – Perfeito! – E desataram a rir, não sabendo bem qual o motivo de tanta alegria. – Supostamente, isso é um dueto – Acabou ele por confessar. E reflectiu mais um pouco, e depois de repente, e como teria dito Bia: “Fez-se luz”, e Tiago levantou-se, tirou duas canetas do estojo de Raquel, na folha da música e sentou-se na secretária, quando voltou entregou a folha a Miky olhou estupefacta. Por que raio teria Tiago sublinhado a letra da musica com duas cores diferentes? Que sentido é que isto fazia? Mas a resposta veio antes de Miky conseguir perceber o que se passara nos últimos segundos: A tua parte é a que esta sublinhada a Amarelo, e a minha é a que esta a vermelho.
- Ah? – Foi a única coisa que Raquel conseguiu dizer visto que não estava a perceber nada.
- A música que escrevi é um dueto, e por isso pensei que pudesses cantar uma parte e eu outra, ou seja, a tua parte é a que esta sublinhada a amarelo e a minha é a que esta a vermelho! – Explicou, cheio de esperança. No entanto Miky continuou a não conseguir dizer nada, sendo a única coisa que disse, um: Abuu. Com isto Tiago voltou a ir buscar a guitarra, e foi então que Raquel se lembrou que sabia falar:
- Nem penses. Eu….não sei cantar. - Interpôs ela.
- Então aprendes… - Brincou Tiago, e ao perceber que Raquel ia regatear, lembrou-a – eu não tive outra hipótese e tu também não vais ter! – E começou a tocar e a cantar, ajudando Raquel a cantar em algumas partes e deixando-a cantar a solo, noutras.
- Foi assim tão difícil? – Perguntou Tiago, sabendo já a resposta, no entanto Raquel trocou-lhe as voltas:
- Não, não foi difícil de todo, mas supostamente em vim cá para estudar, não para cantar.
- É apenas o intervalo das 5! – Gozou ele. E foi então que Raquel olhou alarmada para o relógio, já eram 5 horas! Como o tempo tinha passado depressa:
- Tenho de ir. Adeus até amanhã. - E saiu disparada do quarto. Tiago seguiu-a, sem dizer nada, mas passado um bocado percebeu que Miky se ia enganar no caminho:
- É para a outra porta! – Indicou, ao ver que Raquel se dirigia para a sala, e não para o hall, esta passou por ele, e não disse nada, ao que Tiago a puxou pelo pulso para se despedir. Subitamente Raquel apercebeu-se de que deveria ter comido alguma coisa no lanche, pois agora sentia-se um pouco tonta, e não queria culpar a proximidade a que estava de Tiago por isso. Este deu-lhe um beijo na testa e disse-lhe que a iria buscar no dia seguinte para irem juntos para a escola, ao que ela concordou, e correu para casa. Se a sua mãe já tivesse chegado iria ter de dar umas boas explicações. Por sorte, quando bateu a porta que lha abriu foi Mateus, ao que ela percebeu que os pais ainda não estavam em casa.


"'Bia"'...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Convite...




Virou a chave da porta, e como já esperava, lá estava Ricardo a sua espera com um ar que pretendia ser serio (para a assustar), de braços cruzados, mas mal Raquel entrou, Ricardo desmanchou-se a rir.
- Tenho cara de palhaça, ou quê? – Perguntou Miky também a brincar, tentando no entanto parecer uma inocente criança que não sabia qual era o mal que tinha feito, ou melhor, tentando fazer parecer com que nada de extraordinário tinha acontecido. No entanto Ricardo olhou-a com aquele olhar que não deixava dúvidas de que não valia a pena tentar evitar o assunto. – O que queres saber? – Perguntou Raquel como que esforçando-se para não implorar por falar naquilo noutra altura.
- Não é óbvio? – Despejou o irmão, Raquel abanou demais a cabeça em sinal negativo, o que a fez sentir-se novamente tonta, dirigiu-se por isso à sala, para se sentar no sofá, aquela conversa seria, naturalmente, demasiado longa para o gosto de Miky, por isso seria melhor sentar-se, Ricardo riu-se novamente, e começou a despejar a baldada de perguntas: O que aconteceu? Sabes que não me consegues esconder nada! E… eu sou o único a quem podes contar isto, visto que as tuas amigas não iriam gostar de te ouvir… Vocês andam? – Raquel não conseguiu reter todas as perguntas, e por isso limitou se a responder a que ela sabia que seria a que o irmão mais queria ouvir:
- Não!.... É claro que não andamos, que disparate é esse?! – Perguntou Miky, não querendo no entanto saber a resposta. Ricardo, como já tinha dito anteriormente, conhecia-a bem de mais, e era obvio que com aquela simples pergunta, ele iria direitinho ao ponto fraco de Raquel. Mesmo que mentisse sobre o que sentia, ou o que pensava estar a começar a sentir por Tiago, ela tinha a certeza de que o irmão, mais do que qualquer outra pessoa, não se iria deixar enganar-se. Desistiu de mentir ao irmão, mas como também não lhe queria contar toda a verdade, “fugiu” para o quarto, e fingiu estar a estudar História. Passaram-se horas, durante as quais Raquel não fez mais nada, se não pensar no que tinha acontecido nessa tarde, não estudou, não comeu, simplesmente se deitou na cama, e sempre que alguém ia ao seu quarto, fingia estar a dormir, para não ter de voltar a falar, com quem quer que fosse. Quando a noite caiu, fechou as persianas, mas voltou a deitar-se. Queria fazer algo, queria comer, queria falar mas não sabia o quê, nem sobre o quê. Acabou por adormecer, por volta da meia-noite, e no dia seguinte quando acordou, parecia que aquelas horas passadas no quarto tinham sido desperdiçadas, afinal, ela já decidira. Iria ser “Amiga” de Tiago, quer quisessem, quer não! Ficou surpreendida por não ter sono, nenhum, pois as poucas horas que dormira tinham sido passadas a vaguear por sonhos, pesadelos. Abriu a janela para poder ver como estava o dia. O céu estava carregado de nuvens que ameaçavam rebentar a qualquer momento e deixar cair baldes de água sobre o solo. Vestiu umas calças de ganga e umas quantas camisolas, para se assegurar de que não teria frio. Não suportaria outro abraço daqueles, por muito agradáveis que fossem. Uma vez que se levantou mais cedo do que costume, saboreou o pequeno-almoço, ainda era bastante cedo para ir para a escola. Quando Ricardo entrou na cozinha e viu que a irmã estava consideravelmente bem-disposta, ainda ficou mais espantado do que a própria Raquel, quando percebeu que sorria. Não sabia ao certo, mas tinha um pressentimento de que as coisas não seriam assim tão más, tento o apoio de Tiago. De repente a campainha tocou, trocaram um olhar de espanto. Ainda era muito cedo para receber visitas… Teria acontecido alguma coisa?...
- Eu…Vou ver quem é… - Disponibilizou-se Ricardo. E saiu tão rapidamente da cozinha como voltou a entrar. - Hum, pois… Raquel, tens uma pessoa à tua espera…é…melhor despachares-te… - comunicou, este.
Raquel ficou baralhada, mas ao mesmo tempo ansiosa por descobrir quem estaria a sua espera, por isso, devorou o resto do seu pequeno-almoço, e correu, para o quarto para ir buscar a sua mochila, guarda-chuva, e por um pouco de perfume.
- Adeus mãe, pai! – Despediu-se.
-Porta-te bem! – Retorquiu o pai, ao que esta não respondeu. Já ia no hall de entrada e parou para respirar fundo, em seguida abriu abruptamente a porta. A curiosidade que estivera até então estampada, no seu rosto transformara-se em completa surpresa. De todas as pessoas que Miky esperará ver do outro lado da sua porta, aquela era a que menos possibilidade pensara ter em ver, mas era também a que mais provavelmente lá estaria, considerando os recentes acontecimentos.
- Bom dia! – Saudou Tiago, dano um beijo na cara a Raquel, ao que o seu coração respondeu com um “saltinho”. – Vens?
- Hum…Claro… - respondeu Raquel meia desorientada. Caminharam juntos, até à escola, e quando lá chegaram, deram algumas voltas, até que, o estridente som da campainha os fez acordar e se encaminharam para a sala. Quando lá chegaram, aperceberam-se de que os colegas os olhavam desconfiados, como se soubessem de um segredo que ambos mantinham e que agora tinha sido descoberto. Parecia que os queriam censurar por algo que tinham feito, só pelo olhar! Miky olhou confusa as caras, irritadas, e depois olhou especialmente para: Lua, em primeiro, que parecia demasiado desiludida para apresentar qualquer sinal de irritação, Bia, que apresentava em clara expressão de repreensão e por fim olhou para Leu, que parecia que lhe tinham apunhalado as costas! E o pior de tudo isto é que nem Raquel nem Tiago sabiam a que se devia aquela recepção tão pouco amiga. Raquel queria perguntar o que se passava, mas não teve coragem, e por isso, foi juntamente com Tiago para um canto, mas nem assim deixaram de ser perseguidos pelos olhares irados. Tentaram esquecer o que os rodeava, e conversavam sobre um tema que lhes ficou alheio, pois nada do que diziam se fazia ouvir sobre o que viam. Passaram uns dois minutos, ou nem isso, até que a professora chegou e a sua turma se encaminhou para a sala. Miky não sabia se estar com o seu grupo de área de projecto seria bom ou ainda pioraria mais a situação, tinha um mau pressentimento e isso não lhe agradava! Ainda por cima, de todas as pessoas do seu grupo (- Bia, Lua, Jéssica e Vanessa), nenhuma delas parecia querer ajuda-la a compreender o que se passava…e muito menos falar com ela…
Entrou na sala acompanhada por Tiago, pareciam-se com uns delinquentes que passam por um réu de juízes, e de todos esses juízes, parecia não haver um único a querer defende-los. Lançou um último olhar desesperado a Tiago, ao que este lhe respondeu com um igual e foram ter com os respectivos grupos, Miky sentou-se com uma vontade quase que invencível de sair daquela sala disparada e desaparecer, e só voltar a aparecer quando tudo estivesse resolvido, mas sabia que não podia fazer isso…seria uma cobarde! Afinal de contas não estava a acontecer nada de mais…nada mesmo…só estava a ser censurada pela turma em peso, e nem sequer sabia qual era o motivo de tal condenação! Era só e apenas, aquilo que Raquel mais temia que acontecesse!
O tempo da aula passou como se também ele quisesse condena-la. Quando finalmente tocou, Miky tratou de ser a primeira a sair da sala, logo seguida de Tiago. Tinha sido ignorada a aula inteira, não conseguiria aguentar muito mais tempo sem ter um ataque de nervos! Foi para a parte de trás da escola e só ai percebeu que Tiago vinha atrás dela…Teria sido algo muito agradável falar com Tiago, se, Raquel não receasse perder aquele amigo também!
- Estás bem? – Perguntou Tiago.
- Estou… - respondeu Raquel no que era apenas um sussurro. Não conseguiu erguer a cabeça, com medo de ver que já não havia aquele olhar doce, que afastava os problemas da sua cabeça, é que apenas a deixava pensar, no que acontecia naquele preciso momento…
- Nota-se que estás óptima…até foi por isso que perguntei se estavas bem… - declarou ele, ao que Raquel percebeu que Tiago deveria estar na mesmo situação que ela, e que iria encontrar o olhar terno, que costumava ver quando o olhava.
- É…por causa, do que aconteceu de manhã… - confessou Raquel – eu detesto que elas façam aquilo!... A Bia e a Lua sabem perfeitamente que eu prefiro que elas digam logo tudo a que se chateiem comigo, sem eu saber o porquê!... Como é que eu posso pedir desculpa por algo que supostamente fiz, mas que não sei qual é o mal de o ter feito!
- Pois…não sabes mesmo porque é que o pessoal está assim? – Perguntou ele.
-Não, elas simplesmente ignoraram-me, e quando não o faziam passavam o tempo a mandar boquinhas do tipo: “Pensei que fosses minha amiga. Soube a morango ou a mentol? Foi melhor do que o do Leo?...” – declarou Raquel quase histérica – Fazes alguma ideia do que estavam a falar?
- “Soube a morango ou a mentol?!” – Repetiu Tiago, com ar de gozo, ao que Miky não se conteu em rir. – Queres ir dar uma volta? – Propôs Tiago mudando de assunto.
- Sempre… - Aceitou Miky. A única coisa que queria naquele momento era esquecer-se do que ouvira e vira na aula. A aula de matemática passou mais depressa do que a de área de projecto e de história, mas nem por isso a ajudou muito, porque apesar de já não estar ao pé das supostas amigas, de vez em quando ainda conseguia ouvir as bocas que estas mandavam, e tornava-se cada vez mais difícil, bombardeá-las com perguntas das quais não queria saber resposta, queria apenas tirar aquele peso que sentia por não ser capaz de confrontá-las. A última aula do dia, foi sem dúvida a que apesar de tudo ainda foi mais facilmente suportada. Era uma aula em que a turma estava dividida por turnos, e por isso os comentários já quase não existiam, pois Bia fazia parte do outro turno. E para grande felicidade a professora decidiu fazer experiencias, o que não deixou a Miky muito tempo para pensar em desastres, para sua grande sorte… Ela e Tiago montaram em conjunto um circuito eléctrico, no qual constavam, uma pilha, um multímetro, uma lâmpada, fios de ligação como é obvio, e no qual experimentaram vários materiais para saber quais deles eram bons e maus condutores. Foi a primeira aula em que tinham estado no laboratório, e até nem tinha corrido assim tão mal, contando com as expectativas de Raquel, em relação ao facto de o Júlio por fogo à escola! Quando tocou, Raquel nem queria acreditar que 90 minutos tinham passado tão depressa, e juntamente com Tiago foram para o portão da escola. Caminhavam de cabeça baixa, ambos consumidos por um sentimento de culpa que não sabiam a que se devia, e apesar de não saberem qual o motivo da manifestação dos colegas desse dia, ambos desconfiavam de algo, mas parecia não fazer sentido! Parecia faltar a peça principal! Sabiam que não lhes adiantava estar assim, a resposta não cairia do céu… E se queriam descobrir o que se passava, não podiam agir como dois mudos, que não tem qualquer meio de comunicação. Foi Tiago que tomou iniciativa:
- O que vais fazer hoje à tarde?
- Mmm – pensou Miky, a verdade é que não tinha planos nenhuns para essa tarde, era como se a imaginação lhe tivesse sido roubada! - Não sei…
- Então…e se… - Principiou Tiago – passasses por minha casa…podíamos estudar para os testes que ai vem? – Propôs um pouco duvidoso, não do facto de querer realmente fazer aquilo naquela tarde, mas sim da resposta de Raquel. Esta demorou um pouco a traduzir tanta informação para a sua cabecinha: Tiago queria que ela fosse para casa dele…estudar. O que poderia haver de mal nisso? Nada? Mas Raquel sabia que o seu irmão não iria deixar passar aquilo em branco, mesmo assim, aceitou, era sem dúvida por um bom motivo, iriam estudar para História e Inglês, mais nada! O resto do caminho foi passado a falar nas aulas e a contar patetices que já lhes tinham acontecido, e quando Raquel chegou a casa, já Ricardo lá estava.
- Olha, o Mateus vem para cá à tarde… - informou – portanto, não faças asneiras – declarou ele na brincadeira.
- Ah… – Raquel não sabia como haveria de dizer aquilo… - Eu não estou cá… - Ricardo fez uma cara de quem não percebia nada – vou para a casa de um amigo…
- Amigo?? E… esse amigo…assim, só, por acaso não é o… Tiago? – Era incrível, sempre que Raquel não queria que Ricardo soubesse algo, ele descobria quase imediatamente! Fez uma careta má e foi comer.
- Então? – Perguntou Ricardo.
- Então o quê? – Retribuiu Raquel.
- Ah, a menina já deve pensar que é muito grande! Ainda me tens de dar uma explicação plausível para eu te deixar sair de casa! Sabes que os irmãos mais velhos têm de tomar muito bem conta das maninhas! Hoje em dia há muitos raptores por aí a fora! – Gozou ele. Raquel limitou-se a rir e a abanar a cabeça. – Olha que eu não estou a brincar minha menina… Vá desembucha lá, o que é que vocês vão fazer? – Perguntou com obvia intenção de dar a entender que estava mais curioso do que aquelas velhas que sabem a vida de toda a gente.
- Vamos estudar, mais nada! Tem lá calma, ou queres que eu te comece a perguntar que trabalho de grupo tão grande é que tu tens a fazer com a Carla? – Perguntou Raquel a picar o irmão. Este fez cara de mau, mas depois desatou a rir…
- Sabes como é…és a mais nova…és rapariga…não te pode acontecer nada…e não vá o Tiaguinho, ter ideias estranhas… - Brincou ele ao que Raquel fez um sorriso sínico – vá, não fiques assim. Mas agora a sério… Eu vou passar por lá de cinco em cinco minutos, já aviso! – Miky fez uma careta escandalizada. Sabia muito bem que o irmão não se importava nada que ela fosse ter com Tiago, e por isso não ficou aborrecida com o rumo da conversa. Foi comendo com alguma dificuldade, devido aos engasgos, derivados da conversa parva de Ricardo, arrumou a loiça, e já ia a sair de casa quando o irmão voltou a interrompe-la:
- Isso é que vai ser um estudo! Sem livros, nem nada! Pois…é não é?
- Esqueci-me!
- Sim claro, numa tarde em que vais estudar, esqueces-te da coisa que menos probabilidade se tem de esquecer… - gozou ele.


'"Bia'"...

sábado, 8 de agosto de 2009

Decisão...



Segunda-feira começou muito bem para Miky, na aula de ciências naturais recebeu um teste de 85,2%, o que a animou ainda mais, mas também ficou a saber que o melhor teste tinha sido o de Tiago, embora este não apresentasse nenhuns sinais de se mostrar entusiasmado ou feliz, continuava com o mesmo ar soturno, como se não soubesse sorrir. Lua e Bia tinham deixado de lançar olhares mal-humorados a Miky, visto que esta deixará de falar completamente para Tiago. Mas para não variar, há sempre um senão, e apesar de a última semana ter sido boa tanto a nível de escola como do relacionamento com os amigos para Raquel, quando chegou à aula da directora de turma, toda a turma estava receosa em entrar dentro da sala, pois os resultados dos testes não tinham sido todos como os de Raquel e Tiago, mas para grande surpresa dos alunos, não foi dos testes que a D.T. falou, iriam ser mudados os lugares dentro das salas de aula, e para infelicidade de maior parte do pessoal, iriam ser dispostos por números! Quando a professora disse isto começou um protesto dento da sala. Raquel revirou os olhos e começou a contar para si mesma de dois em dois. As mesas da sala em que tinham mais aulas eram de dois. E era a partir daí que iriam ser dispostos. Miky deu um salto ao perceber com quem iria ficar. Só podiam estar a brincar com ela. “Definitivamente isto deve ser uma brincadeira de muito mau gosto! Só pode!”. Tentou convencer-se. Mas era mais que obvio que não era nenhuma brincadeira. Será que estariam todos contra ela?!
A aula de inglês pareceu durar uma eternidade para Raquel, e para mal dos seus pecados, a professora pedira-lhe para que esta tomasse conta de Tiago!...” Mas o que é que eu fiz para merecer isto!!” perguntava-se Miky a si mesma quase à beira de capitular perante a presença de Tiago. Este por sua vez, e para variar, pusera um sorriso na cara, logo que a professora os pusera juntos.
- Evitas de fazer cara de má. – Brincava este.
- Não estou com cara de má, mas a Bia e a Lua vão ficar, acredita. – Acabou Raquel por desabafar.
- Ai foi por isso que me deixas-te de falar? – Perguntou Tiago, excedendo-se, e chamando a atenção da turma.
- Fala mais baixo, ou a Stora ainda nos manda para a rua aos dois! – Repreendeu Raquel, nervosa.
- Estás mesmo a fazer o que a Stora te pediu? Uau…surpreendes-me a cada segundo. – Ironizou ele.
- Não, não estou a fazer o que a professora me pediu, simplesmente estou a ver se não estrago o meu não cognitivo por tua causa! – Esclareceu.
- Ah, esta bem, esta bem… - Troçou Tiago.
- O que é que tu queres? – Inquiriu Raquel percebendo que aquela conversa iria ser bem mais longa do que o que deveria ser.
Então, Tiago tomou um ar mais serio, embora houvesse um réstia de brincadeira no seu olhar.
- Porque é que deixas-te de me falar por causa delas? – Interrogou apontando para Bia e Lua – É, ridículo! Elas não têm o direito de escolher os teus amigos! Se elas não gostam de mim, bem, eu não tenho culpa, mas não acho que isso seja motivo suficiente para deixares de falar para mim.
- Não é o facto de elas não gostarem de ti! Pelo contrário elas adoram-te… - explicou Raquel pacientemente, mas vendo que Tiago não conseguia perceber qual era o problema. – e é mesmo esse o problema!
Tiago fez um careta, e depois soltou um “ah”, que deu claramente a perceber que não tinha percebido… Miky riu-se, revirou os olhos e respirou profundamente, antes de responder, de maneira, a que o que iria dizer a seguir não se assemelhasse a um foguetão ao atravessar a camada de ozono:
- Como a Bia e a Lua te adoram tanto…vão…querer ser mais do que tuas amigas…só que elas não esperavam que tu te desses assim tão bem comigo…- tentou Raquel explicar
- Sim, e… - incitou Tiago, continuando a não perceber qual era o problema. Miky não tinha palavras para explicar aquilo que ela sabia que Bia e Lua sentiam, e nesse momento mais do que nunca desejou ter um manual a explicar o que pensavam e sentiam as raparigas.
- Esquece, não ias perceber…coisas de raparigas… - desistiu ela.
- E, vais continuar a ignorar-me por uma coisa que eu nem sei o que é?
Miky olhou de relance para as amigas. Tiago tinha razão. Elas não podiam escolher-lhe os amigos, e também não deveriam ter razão para se chatearem com Miky por ela se dar bem com Tiago! Era-lhe difícil fazer escolhas, e aquela parecia-lhe a mais complicada de todas. Mas afinal, as amigas servem para nos ajudarem, não para complicar as nossas escolhas! Raquel abanou a cabeça. Ninguém iria impedi-la de ter os amigos que ela queria ter, Lua e Bia acabariam por aceitar, afinal eram muito amigas e não seria um rapaz que iria estragar essa amizade.
- Vais para casa a seguir? - Perguntou ela, quando se decidiu a formar amizade com Tiago.
- Primeiro tenho de ir buscar o meu maninho. – Declarou Tiago como que pedindo desculpas, mas logo pôs um sorriso no rosto – mas se quiseres podes vir comigo, se tiveres tempo é claro, não é muito longe a escola dele. – Propôs.
-Pode ser. – Acedeu Miky. Por isso no final da aula de inglês Raquel e Tiago seguiram juntos em direcção a escola primária. Anteriormente Miky já tinha ido a esta escola, e embora não guardasse muitas recordações desta, quase poderia ter jurado que o caminho era mais longo, o tempo na companhia de Tiago parecida voar. No meio das brincadeiras e piadas deste, Raquel sentia-se como nunca, embora continuasse com o pressentimento de que aquilo era apenas um sonho bom, que em breve iria acabar. Quando chegaram a escola primária ainda era cedo, e, por isso, tiveram de esperar, até às cinco horas, o que nem foi muito difícil, visto que havia tema de conversa para a tarde inteira. Quando tocou, começaram a sair pequenos grupos de pinguins, ou melhor de estudantes em miniatura. Raquel esticou o pescoço para ver se encontrava, provavelmente uma miniatura de Tiago, pelo que ficou espantada quando viu um miúdo que vinha sozinho correr na sua direcção, com o sorriso mais verdadeiro que Miky alguma vez vira numa criança. Sem sequer ter tido tempo para perguntar, quem era o miúdo, este atirou-se aos braços de Tiago, era agora óbvio para Miky que aquele miúdo, completamente diferente Tiago e da sua mãe era o seu irmão pequenino.
- Raquel, este é o meu maninho, André. – Explicou. E sem que Raquel tivesse tempo nem para dizer um olá…
- Finalmente trouxeste a tua namorada! – Disse André, ainda mais radiante, do que quando vira o irmão. Quando André proferiu aquelas palavras aconteceram mais coisas do que já eram previstas acontecer no segundo seguinte: Raquel corou, e abriu a boca para contestar, acabando no entanto por não dizer nada, em vez disso recuou um passo, e infelizmente, ou Felizmente… tropeçou numa pedra o que quase a levava a cair se não fossem os bons reflexos de Tiago, que agilmente a amparou da queda com os braços; o que os deixou numa posição que comprovava a teoria de André, por um momento, Raquel e Tiago entreolharem-se, um tanto assustados, mas também bastante confusos, com o que acabara de acontecer. Finalmente, Tiago pareceu voltar a realidade, puxando Raquel para que esta não caísse quando a libertasse daquela prisão acolhedora, depois ambos se afastaram, e com isto, André voltou a falar de uma maneira quase que paternal…o que soou estranho…
- Oh, vá lá, maninho, pensei que não tínhamos segredos! – Disse o pequenito com uma lata, que fez com que Raquel quase esquecesse o que se tinha acabado de passar, mas como seria possível esquecer um momento tão mágico?!
- E não temos, e por isso pensei que já soubesses que não tenho namorada! – Esclareceu Tiago um pouco irritado com o irmão. Ao ouvir o que este dissera, Raquel, para sua grande surpresa, sentiu-se agradada. Não pelo facto de os dois irmãos estarem a discutir, mas sim, por Tiago ter assumido ali diante de si, o mais clara e expressivamente, que não tinha namorada. Zangou-se consigo própria por se sentir assim, aliviada pela recente descoberta. Era simplesmente patético!
- Não faz mal! Não te chateis com ele, afinal o teu irmão não tem culpa de se preocupar contigo… - Tentou desculpar Raquel. Ao ouvir isto Tiago pareceu ficar menos tenso, mas nem por isso deixou de lançar um olhar significativo ao irmão que deixava bem claro para ele não voltar a comentar nada sobre aquele assunto. No entanto, e como não poderia deixar de ser, André traquina como mostrara ser desde o primeiro minuto, sussurrou baixinho a Raquel – Ele gosta de ti, sabes… - Raquel olhou-o desorientada, em seguida olhou para Tiago que seguia a sua frente, e voltou a olhar para André. Apesar dos cerca de quinze minutos que passara parada ao pé dos dois, só agora conseguia ver que eram completamente diferentes um do outro. Tiago com os seus cabelos meio – encaracolados, e de um castanho claro, com o seu porte físico que fazia inveja a qualquer rapaz da sua idade, e com os seus olhos ainda mais profundos do que escuros, não espelhavam nada a imagem do irmão, de cabelo espetado e escuro, e com olhos claros da cor do mar…era uma diferença que levaria Miky a duvidar que eles fossem irmãos, visto que a mãe também não se assemelhava nada a André, com excepção dos olhos, que apresentavam a mesma tonalidade azul-marinho. Apesar da discussão inicial os dois rapazes não conseguiram passar muito tempo sem falaram, e quando o voltaram a fazer parecia que não tinha ocorrido qualquer chatice. Era simplesmente animador aquele cenário! Como é que Raquel poderia ter pensado que Tiago era mais um daqueles rapazes “podres de bons” como diria a Jéssica, mas que no entanto como acontecia na maior parte das vezes com esses rapazes que eram considerados “deuses gregos” se mostravam arrogantes e convencidos. Esses rapazes – convencidos e arrogantes – deveriam ser, talvez, pensou Miky, meia a delirar pelos recentes acontecimentos, as tentações do inferno, os rapazes simpáticos, carinhosos e queridos, deveriam ser os anjos, e os poucos que Raquel conhecia com Tiago – queridos, fofos, carinhosos, lindíssimos, e cuja companhia faziam ansiar qualquer pessoa – deveriam ser os deuses “todos poderosos”… Raquel riu-se ao constatar no que estava a pensar…Era ridículo! Como poderia chegar aquele ponto de delírio só por Tiago ter estado “próximo dela”. De repente uma ideia assaltou-lhe o pensamento. Na sua história – na original – constava uma tentativa de beijo na 5ª cena, e um beijo na última! Será que Lua e Bia teriam retirado essas partes? Fez um esforço para se lembrar da leitura feita na aula de teatro, não conseguia recordar-se de nada… Supondo que apenas teriam alterado a história depois de escolherem as personagens, era lógico que tinham tirado essas partes – Lua e Bia morriam de ciúmes da “amizade” de Raquel e Tiago, se estes dessem um beijo, mesmo que fazendo parte do teatro, talvez ainda lhes desse um ataque de fúria! – Mas…e se tivessem alterado o texto antes de o proporem à turma? Era bem possível… Do pouco que Miky se lembrava dessa desastrosa aula, recordava com bastante nitidez o facto de Lua ou Bia – já não sabia ao certo, qual delas tinha sido – terem dito que tinham um texto pronto, e se assim fosse, talvez esperassem serem escolhidas para fazer o papel de Ana, ou seja, as cenas dos beijos, muito provavelmente, (-demasiado provavelmente), ainda lá estariam. Raquel estremeceu ao de leve só de pensar! Se ficava assim quando apenas tinham ficado a uma distância razoável um do outro – essa distância não seria considerada razoável quer por Bia ou por Lua – se houvesse uma tentativa de beijo por parte de Tiago, mesmo que sendo feita por cauda de um teatro… Miky voltou a estremecer ao de leve. E se uma tentativa de beijo teria consequências graves, o que dizer de um Beijo, Raquel pensou no que lhe poderia acontecer: talvez ficasse atordoada – mas isso ela ficara apenas por estarem perto um do outro - , seria bem pior do que ficar atordoada…e se se esquecesse do texto! E se desmaiasse?! Raquel voltou a estremecer, mas agora de uma maneira mais violenta, pelo que Tiago se apercebeu:
- Tens frio? – Perguntou.
- Não. – Tentou mentir Raquel, mas nesse preciso momento apercebeu-se de que a sua mentia era escusada pois tremia quase descontroladamente, por causa do vento que corria, e que Miky não sabia de onde tinha vindo. Tiago riu-se para si, ao perceber que Raquel não conseguia mentir, e envolveu-a nos seus braços - eram como fogo que derretia um iceberg, e que o transformavam em água quente. No caso de Raquel, fez com que esta perdesse o frio, mas no entanto, não conseguiu parar de temer, e embora, para grande alivio de Raquel, Tiago achasse que isso se devesse ao frio – que só por acaso Raquel deixara de sentir desde o momento em que fora envolvida pelo abraço de Tiago – esta sabia perfeitamente que tremia devido ao nervosismo, nervosismo este derivado de não saber se iria conseguir aguentar a curta distância que faltava até sua casa, sem fazer algum disparate, ou sem ser vista por alguém conhecido. Já conseguia avistar a sua casa o que a motivou, pensou em libertar-se do abraço, mas sabia que não queria fazer isso, no entanto começava a sentir uma certa falta de forças nas pernas que não poderiam ser bom sinal. Estavam quase a chegar ao pé da casa de Tiago e por isso Raquel ( a muito custo), tentou sair daquela “prisão”, mas Tiago parecia estar decidido a não deixa-la sair. André percebeu isso e dirigiu-se a casa sozinho, dizendo qualquer coisa que não foi perceptível para nenhum deles, embora ambos soubessem muito bem qual era o tema do seu murmúrio. Nos escassos metros que separavam as suas casas, Raquel começou a sentir-se tonta, tinha medo de que a mãe, o pai, ou o irmão a vissem assim com Tiago, seria motivo de conversa para muitas semanas!...
Chegaram ao portão, da sua casa, e finalmente Raquel foi liberta da “prisão”. Vacilou um pouco o que levou Tiago a esticar novamente os braços para a aparar de uma possível queda. Era simplesmente patético!
- Queres que te leve a porta? – Duvidou ele.
- Não, não é preciso – Riu-se Raquel pensando na simples hipótese, de lhe abrirem a porta de casa e ela estar “agarrada” a Tiago.
- Então…adeus. E vê lá se te portas bem! – Despediu-se ele, rindo-se e dando um beijo na testa a Raquel, isto fê-la vacilar outra vez, mas desta vez conseguiu apoiar-se no muro, pelo que Tiago voltou a dizer, ainda mais duvidoso:
- Tens a certeza de que não queres que te leve a porta, é que eu não quero que caias!
Raquel, recompôs-se, lançou um sorriso a Tiago e atravessou o pátio, que separava o portão da porta da sua casa para que este tivesse a certeza de que ela não caia. Voltaram a trocar olhares, e Tiago voltou vagarosamente para casa. Raquel observou-o a dirigir-se para casa, mais para ganhar tempo e arranjar coragem do que para outra coisa.

"'Bia"'...

domingo, 2 de agosto de 2009

Amizade impossível?...



Depois de acabar a sua exposição oral, Miky afundou-se nos exercícios de francês, e nas complicadas equações de matemática. Estava tão concentrada que nem deu pela chegada de Tiago.
- Precisas de ajuda? - Perguntou este.
- Não, obrigada, a mãe ainda não chegou Ricardo, se quiseres alguma coisa para comer, tens panquecas na cozinha…- informou Miky completamente emaranhada nos trabalhos, nem dando conta que não estava a falar com o irmão.
- Obrigada, mas eu não estou com fome…e… também não me chamo Ricardo…- chamou à atenção Tiago, sentando-se ao lado de Miky e observando o que esta estava a fazer. Ao perceber com quem estava a falar Miky ficou um pouco embaraçada, mas continuou a fazer os trabalhos de matemática.
- Esta está mal…quando mudas um termo de membro tens de trocar os sinais – informou Tiago. Raquel limitou-se a emendar, e continuou como se nada fosse – obrigada por me ajudares nos trabalhos de casa Raquel - dizia Tiago em tom irónico. Miky pousou o lápis, respirou fundo e respondeu.
- Obrigada, mas as minhas dúvidas, eu tiro-as com o professor.
- E tens a certeza de que percebes, ou que sequer as pões ao professor? – Duvidou Tiago.
- Está bem, pronto, tenho alguma coisa mal, senhor espertinho? - Inquiriu Raquel.
- Não, o resto está tudo bem, acho eu… - respondeu ele depois de analisar os T.P.C.’s de Raquel. – Já fizes-te os de francês? É que eu não consegui perceber a matéria, o francês não me entra na cabeça, definitivamente!
- Não, ia fazer agora, mas se quiseres vais buscar os livros a casa e fazemos juntos, acho que percebi mais ou menos a matéria. – Propôs Raquel.
- Óptimo! Fica aqui que eu já volto…ah…queres alguma coisa para comer?...panquecas? - Sugeriu Tiago. Miky riu-se e acabou por responder:
- Sim, só por causa disso, podes trazer alguma coisa… - brincou.
Passado um bocado, Tiago voltou a aparecer com livros debaixo do braço, carregado com um bolo de chocolate com aspecto óptimo e com sumos. Ao ver isso Miky desatou a rir. Sentaram-se os dois debaixo do chorão a fazer os trabalhos de casa e quando os acabaram, encheram a barriga de bolo de chocolate, sumo e queques. Naquela tarde, pela primeira vez Raquel e Tiago tinham conseguido falar civilizadamente e mais, ambos se tinham divertido a valer como já não faziam à muito. Quando começou a anoitecer, arrumaram os livros, e foram para casa.
Durante o fim-de-semana Raquel e Tiago, não voltaram a falar, e ambos achavam que aquela tarde não tinha passado da sua imaginação, mas logo na segunda feira de manhã Miky teve a prova de que não tinha imaginado aquilo: estava juntamente com Bia, Lua, Cristina, Rute, Tatiana, Vanessa, e o resto das raparigas da sua turma quando Tiago apareceu:
- Acabas-te por não me dizer quem é o Ricardo…- segredou-lhe discretamente.
Miky riu para si mesma, mas ao ver a cara de Bia e Lua, percebeu, que aquilo realmente, não podia passar de um sonho…como poderia ter pensado, em dar-se bem com Tiago, quando tanto Bia como Lua estavam interessadas nele! E para além disso, ele não deixará de ser estúpido por a ter ajudado a fazer os T.P.C.’s!... Que ideia! Isso não podia voltar a acontecer…
Durante o resto da semana evitou estar a sós com Tiago, ou sequer dar-lhe uma oportunidade para falarem, e por isso, só voltaram a comunicar, na quinta-feira à tarde, na aula de teatro, pois tinham de começar a ensaiar as primeiras cenas. Quando na seguinte sexta-feira, Tiago voltou a encontrar Raquel ao pé do chorão, perguntou-lhe o que se passava, pois achava estranho, visto que se tinham dado tão bem naquele dia, mas Raquel apenas lhe soube responder que as coisas mudavam, e saiu disparada para casa, correu para o quarto e afundou-se nos cobertores. “Existem medos difíceis de superar, e ainda por cima, quando superados, ainda dão muita dor de cabeça” pensou antes de adormecer, e mergulhar num sonho confuso que envolvia Tiago, o Irmão, Lua e Bia. Foi acordada por Ricardo, duas horas mais tarde, para irem jantar.
- Estas bem? - Perguntava-lhe este.
- Sim, porquê? – Mentia Raquel.
- Não sei, estás um pouco estranha…- argumentou o irmão.
- Achas? Porquê? – Ignorou Miky.
- Tu é que devias saber o porquê… - opinou Ricardo.
- Pois, se descobrires o motivo diz-mo…- acabou Miky por confessar.
- Não será por causa do… Tiago? – Propôs este, ao que Raquel se engasgou, e lançou um olhar ao irmão que o fez entender claramente que não voltasse a mencionar esse nome. Nessa mesma noite, Raquel e Ricardo receberam a noticia de que iriam ao slide splash, nesse fim-de-semana, o que animou imenso Raquel, na manhã seguinte acordaram cedo, e saíram mal o sol se pós, para não apanharem muita fila a entrada do parque aquático.
O céu apresentava algumas nuvens, embora estas parecessem apenas pequenos pompons num mar de um azul límpido. Foi um dia em cheio, sem Tiago, sem Leu, sem Lua e Bia, a chateá-la, para lhe perguntar porque insistia Tiago em passar tanto tempo a tentar chamar a sua atenção… enfim…sem melgas, não é que Raquel conseguisse viver sem qualquer um deles, mas estava farta da pressão que estes exerciam sobre ela, e para além disso, na semana seguinte iria começar a receber os testes, e por isso era bom que aproveitasse os últimos tempos sem chatices por causa das notas!... Com tais condições o dia de Raquel não poderia ter sido melhor…para além de recordar o cheiro a verão e a férias, também conheceu um rapazinho chamado Mateus - que segundo as descrições e classificações de Lua, seria caracterizado como bastante atraente, e um amigo promissor. E também Raquel o achou um rapaz bastante simpático e cavalheiro, dentro dos modernos termos do século XXI. Raquel descobriu agradada que Mateus frequentava o colégio para o qual ela mesma iria no seguinte ano, e onde o seu próprio irmão andava, no entanto ficou ainda mais surpreendida ao descobrir que Mateus era apenas um ano mais velho, visto que era bem mais alto que ela.
- Então…e tu?...Estás para aqui farta de me fazer perguntas…fala-me mais de ti! – Insistiu Mateus.
- Bem, não há muito para dizer… Tenho 14 anos, sou aqui do Algarve também…tenho um irmão que me conhece irritantemente bem! E acredita que é mesmo irritante! Sabe sempre no que estou a pensar! – declarou Raquel pouco à vontade, não pelo facto de estar a dizer isto a um rapaz que acabara de conhecer, mas por se estar a lembrar do que Ricardo lhe dissera noite anterior – “será que estou mesmo assim, por causa do Tiago?” - Perguntou Raquel a si mesma. E pensando no diabo! Ricardo vinha na direcção deles
- E a vêm o meu querido irmãozinho! - Exclamou Raquel
- O quê? O Ricardo é teu irmão!...Não acredito!...- Espantou-se Mateus.
- Sim, mas…tu conhece-lo - Perguntou ela estupefacta, é que se fosse essa a realidade, Miky tinha de admitir que o mundo era pequeno de mais!
- Então maninha! – Cumprimentou Ricardo visivelmente animado – Mathews! Pelos vistos já conheces a minha mana? – Supôs.
- Sim, parece que sim. – Confirmou esboçando o seu sorriso, ou melhor, esboçando o sorriso mais bonito que Raquel alguma vez vira ( se não contasse com o de Tiago, é claro).
Passaram o resto da manhã a falar, e Raquel acabou por descobrir que Mateus era da mesma turma que Ricardo.
Ao meio dia comeram uns cachorros quentes, e até as três horas da tarde entreteram-se a jogar às cartas, contar histórias cómicas, etc...
Quando finalmente puderam voltar à água, atacaram os escorregas, e embora as filas para andar em cada um deles fossem enormes, não foi o tempo que passaram nelas que lhes estragou o dia.
O domingo passou depressa, apesar de Raquel e Ricardo estarem emaranhados nos estudos, receberam a chata visita da tia Florinha que adorava criticar tudo, ou seja, o que quer que cada um deles fazia tinha algo de mal! À noite, quando finalmente a adorada tia foi embora, Ricardo decidiu fazer de palhaço e começou a imita-la:
-Apanha os cabelos Raquel, esse teu cabelo a andar de um lado para o outro não te fica nada bem! – Gozava ele.
Todos se riram, mas o pai de Raquel tomou um ar serio depois de te dado uma gargalhada bem dada, e ordenou que ninguém voltasse a fazer isso, e embora tivesse sido uma ordem, Ricardo ainda sussurrou umas criticas típicas da tia Florinha a Raquel, ao que esta começou a rir-se disfarçadamente.


'"Bia"'...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Certo ou Errado?!


Quem é que tem a certeza do que é certo ou errado?


Ninguém…


É constrangedor quando queremos fazer algo e não conseguimos porque não sabemos o que realmente acontecerá depois de o fazermos!


Quando não pensamos por a nossa própria cabeça então tudo está perdido! Podemos pedir opiniões ou conselhos sim, mas pensar através dos outros, fazer o que eles dizem sem antes reavermos o que queremos, não está certo!


É sempre difícil tomar uma decisão, principalmente quando esta vai mudar as nossas vidas ou pelo menos faz com que as nossas vidas tomem um rumo diferente do que seguíamos…
Para todos, adiar o prazo ou empatar o tempo para dar uma resposta é sempre a melhor opção!
Ter dúvidas não é mau, escondê-las sim!


Se não colocamos as nossas dúvidas aos outros, como é que eles nos podem ajudar e perceberem-nos, para que possamos dar a resposta que se parece mais com a acertada?!


(Não estou a falar das dúvidas que se expõem nas escolas, claro! Estou a falar daquelas dúvidas, das incertezas que percorrem a nossa cabeça, dando voltas e voltas sem pararem, á espera de resposta, mas nunca encontrando, aquelas dúvidas que «correm» de um lado para o outro na nossa mente e que não conseguimos alcançá-las, nem decifrá-las, por muito que queiramos!)


Por exemplo, quando te questionas a ti próprio/a sobre o que deves fazer no meio de uma «confusão» da tua adolescência, em que estás exposto a todos e a tudo, e tens de tomar uma decisão quanto ao que queres, seja a que nível for! Principalmente, se for uma decisão quanto ao nível sentimental, (sim porque adolescentes significa: paixonetas, paixões, amores…), e tu tens dúvidas quanto ao teu sentimento, àquilo que sentes… Aí, só terias de abrir o teu coração e dizer tudo na hora, exprimir as incertezas, as dúvidas que sentias quanto a isso, contar tudo, á espera que te compreendam e que te ajudem a «concertar as ideias», sendo que TU é que tens de decidir no fim, o que queres da tua vida, mesmo que não escolhas o caminho certo! E, se aí não te compreenderem, então esquece, desiste e dá a volta por cima, não te merece!


«Não tenhas medo de cometer erros, acabas por aprender com eles!»


'Miky'

Homenagem...



Para alguns apenas um mero conhecido...


Para outros uma grande amigo...


E para uma pessoa muito especial, era, e continua a ser não só o melhor avo do mundo, como também um pai exemplar...


Mas agora... Tudo o que te dizem, sao palavras ocas...frases vazias que se transformam em mais perguntas sem respostas, em comparação com a dor da perda de alguem tão especial.


Podem-te dizer que vai passar, mas não acreditas, porque a unica coisa em que pensas é no porquê, de isto te acontecer a ti e nao a outra pessoa que tenha uma familia completa...


Agora tudo parece negro como uma noite sem estrelas nem lua, uma noite em que a unica coisa que exite é um vazio, que se vai infiltrando em ti a medida que a realidade arrebatadora cai sobre os teus ombros, e a unica coisa que te apetece é chorar...

Mas lembra-te que nem sempre a noite significa vazio, o preto significa tristeza, e a luz esperança, porque somos nós que dicidimos parte do nosso distino, e agora cabe-te a ti fazer com que as memorias dos momentos felizes que tens do teu avo nao sejam esquecidas, porque mesmo que não o vejas, ele continuara sempre contigo, enquanto acreditares que ele nunca te deixou, e enquanto continuares a ama-lo.

Nunca soube muito bem qual era o sentimento de perda, até ao momento em que descobri o que aconteceu: não queria acreditar, disse para mim mesma que devia ser um engano, ou algo do genero, mas nao pude continuar a mentir a mim mesma, apenas quero que saibas que podes contar comigo para o que quiseres, sempre o pudes-te... Mas agora mais do que nunca, quero que saibas, que faço o que for preciso para te conseguir por um sorriso nessa tua carinha bonita, porque sei que o teu avo tambem não quereia ver as lagrimas a correr pelo teu rosto, por algo que nao se pode mudar, e que aconteceria de qualquer forma...

Isto pode nao fazer qualquer sentido para ti agora, mas sei que um dia vais conseguir perceber o que digo...

Deixo este texto em memoria e em honra de Sr. Barbosa, um grande homem, que fez coisas ainda maiores, e que merece tudo e muito mais...


Em memoria do Sr. Barbosa, para sempre...

Especialmente para te apoiar a ti, Jéssica, com muito carinho e compreenção

Kátia...
(Bia...)