terça-feira, 8 de setembro de 2009

Upss...Imprevisto!!




Conversaram durante o que lhes pareceram ser alguns segundos, mas que na realidade foi meia hora:
- Estás a ver! – Dizia Tiago. – As coisas acabaram por se resolver quase por si próprias!
- Pois, mas não sabes o que me custou falar assim, para a Bia e para a Lua! – Contrapôs Miky. – Vais me dizer que foi a coisa mais fácil do mundo?
- Sim, já fiz coisas bem mais difíceis! – Mentiu Tiago num tom tão irónico que até um surdo perceberia que ele concordava com Raquel, e que apenas estava a gozar com ela. Com isto, Miky esqueceu-se do seu problema das proximidades e pôs se a fazer cócegas a Tiago, este, apôs uns momentos de completo riso, conseguiu pôr Miky ao chão e prendeu-lhe as mãos para que esta não pudesse continuar a fazer-lhe cócegas, estava, praticamente em cima dela, no entanto não a esmagava, porque conseguia suportar o peso do seu corpo todo nos joelhos, no entanto Raquel içou a perna e magoou Tiago sem intenção. Este perdeu as forças e de repente os seus rostos encontravam se a uma ínfima distância de milímetros, subitamente Raquel apercebeu-se de que tinha feito asneira, e foi ai que começou a sentir o chão a roda. Tentou desviar o olhar, mas não conseguiu, tentou arranjar forças para virar a cara, mas temia o que poderia acontecer se o fizesse. Tiago conseguia manter-se a uns milímetros de distância, porque continuava a segurar-se nas pontas dos dedos, mas ambos sabiam que essa força estava prestes a ceder, pois havia uma força muito maior que fazia com que Raquel e Tiago se aproximassem cada vez mais. Subitamente os seus olhares cruzaram-se, e perceberam que ambos ostentavam uma expressão de medo, pelo que poderia vir a acontecer. Algo surreal aconteceu, pois a lei da gravidade foi dar uma mãozinha a atracão de pólos opostos, e juntas conseguiram vencer Tiago e fazer com que os seus lábios tocassem nos de Raquel, nenhum condenou o outro por ter continuado beijo, e secretamente, nenhum queria que este acabasse depressa, mas aquilo que viviam, aquilo que sentiam era mais do que um sonho, mais do que um conto de fadas, era interdito, mas naquele momento, as leis, as normas, tudo deixou de fazer sentido, na terra só existiam duas pessoas, que naquele momento faziam aquilo por que mais ansiavam, mas que sabia ser o fruto proibido. Subitamente, ambos despertaram do sonho cor-de-rosa, e olharam um para o outro revoltados por saberem que não poderiam assumir o que mais queriam.
- Raquel! – Ouviu-se um grito. Ambos congelaram. Se alguém os tivesse visto, iria ser um grande problema. – Raquel, estás em casa? – Ouviu-se novamente. Ambos ficaram um pouco menos tensos, se quem quer que fosse estava a perguntar aquilo seria porque, não sabia de Raquel. Entreolharam-se desesperados, e ouviu-se novamente chamar por Miky:
- É melhor ires lá, eu também já devia estar em casa. – Acabou Tiago por dizer. Raquel lançou-lhe um último olhar de compreensão e foi ter com a sua visitante.
- Raquel! Pensei que não estivesses em casa! Ufa… - Suspirou Bia.
- Bia! O que é que fazes aqui? – Perguntou Raquel com um tom de voz que pretendia ser casual, mas que aos ouvidos de Miky lhe soou muito preocupado.
- Mmmm, eu… – começou Bia hesitante. – Eu acho que te devo um pedido de desculpas! – Raquel foi apanhada de surpresa com aquilo, e deixou de estar distraída passando a tomar mais atenção ao que Bia dizia: Afinal de contas, a culpa disto tudo é minha, e do meu estúpido egoísmo! Devia ter falado contigo antes, mas não! Palerma, fui logo contar tudo a Lua e pimba! A Turma inteira ficou a saber de uma coisa que nem se quer é verdade! Desculpa, eu fui mesmo estúpida, agi mal! Como se tu e o Tiago alguma vez pudessem ter alguma coisa! Como se alguma vez se pudessem vir a beijar, fosse por que razão fosse, vocês até evitaram isso em teatro! – Desabafou Bia mais para si do que para Raquel, mas aquilo apanhou-a ainda mais desprevenida do que tudo o resto: “Como se tu e o Tiago alguma vez pudessem ter alguma coisa! Como se vocês alguma vez se pudessem vir a beijar, fosse por que razão fosse!” Raquel queria dizer algo a Bia para que ela não se sentisse culpada, queria faze-la entender que aquilo tinha sido apenas um mal entendido, queria apenas faze-la parar de falar, porque estava a começar a sentir uma enorme por saber que tinha de lhe mentir, tentou acalmar Bia mas parecia que tinha qualquer coisa entalada na garganta e não conseguia falar, Bia, ao perceber que Miky não lhe respondia, pensou logo que ela estivesse demasiado chateada e que fosse fazer voto de silêncio, ao que começou novamente a pedir desculpas, até que Raquel conseguiu reagir:
- Não faz mal, a sério, já passou! – Tentou Miky dizer com um tom de confiança mas a única coisa que conseguiu foi um murmúrio, felizmente Bia percebeu o sentido que Miky tentara dar as suas palavras e logo acrescentou:
- Olha este fim-de-semana, queres ir para minha casa? Para te poder recompensar pelo que fiz? – Perguntou Bia.
-Não é preciso nada! – Começou Raquel por tentar escapar, mas Bia começou a fazer beicinho, e Miky acabou por concordar. Depois de combinarem tudo, Bia despediu-se e foi se embora, e Raquel quase correu para casa, não fosse aparecer mais alguém que a fizesse sentir mal, com os discursos sentimentalistas de desculpas. Em alturas normais Raquel até conseguia lidar bem com isso mas nesse momento, não estava com a disposição devida, entrou no quarto atirou a mala para cima da cama, e começou a andar as voltas:
- Estúpido parque, estúpida árvore, estúpida relva, estúpida cabeça, não sabias ter-te desviado? Estúpida boca: para que é que existes? Estúpido rapaz, como se não te conseguisses aguentar mais tempo de maneira a arranjar uma solução! Estúpido Beijo! – Despejou Raquel furiosa, no fundo ela sabia que nada daquilo fazia sentido, ninguém tinha culpa, mas era mais fácil culpar os outros! Raquel atirou-se para cima da cama e deixou-se ficar lá a arranjar todos os insultos possíveis para o que tinha acontecido, mas acabou por desistir porque por mais que tentasse todos os insultos que arranjava para Tiago pareciam-lhe injustos, no fundo ela não o culpava, estava apenas furiosa por Bia ter ido logo naquele momento falar com ela!
Sexta-feira amanheceu sombria, e Raquel não previa que o dia fosse melhorar, iria ter um teste de Historia, e embora tivesse estudado o suficiente para tirar uma boa nota, parecia-lhe que o dia em que estudara já fora há demasiado tempo, e temia não se lembrar de nem metade da matéria! Mas o maior medo de Raquel era definitivamente, o momento em que voltaria a ver Tiago, como é que ele reagiria? Não fora de maneira alguma culpa sua o facto de aquilo ter acontecido, mas…e se Tiago achasse que sim? E se perdesse o amigo, o Único amigo com que agora contava? Miky abanou a cabeça e tentou tirar aquele pesadelo da cabeça, mas isso foi impossível, vestiu-se a pressa, e foi comer qualquer coisa, tentou distrair-se ao preparar o seu pequeno-almoço, mas quase ia deixando queimar a torrada, porque aumentara demasiado, tanto a temperatura, como o tempo.
Como tinha quase a certeza de que naquele dia teria de ir sozinha para a escola, deixou-se estar mais um bocado, aconchegada no sofá, com a televisão ligada, a passar os canais, quando se fartou de carregar no botão de seguinte, parou e deixou onde estava: canal dois, definitivamente não era a melhor coisa que podia ter calhado na rifa, mas pelo menos não falava em beijos nem em mentira: se é que se podia chamar mentir ao facto de Miky não ter contado o que acontecera entre ela e Tiago uns segundos antes de Bia aparecer. Tentou concentrar-se no que o Noddy dizia, mas naquele momento mais do que em todos os outros, parecia um completa parvoíce estar a ver aquilo! Já passava das oito horas e Raquel sabia que tinha de se ir embora, não havia mais nada pelo que esperar, mas estava tão bem ali, sentada no sofá, quente, (apesar de ser apenas por fora), sem ninguém para a chatear. E ali podia gritar, pular, dizer o que quisesse, pensar o que quisesse, sem fazer expressões estranhas… Estava tão absorvida nos seus pensamentos que se sobressaltou quando ouviu bater à porta. Levantou-se a custo, um pouco curiosa para saber quem estava do outro lado da porta, mas com a certeza de não ser nada de importante, abriu a porta, e quando viu quem estava do outro lado, recuou dois passos, esfregou os olhos, para ter a certeza de que estava a ver bem, e deixou escapar um breve: Ah, de espanto. Nunca esperara, voltar a presenciar aquilo, especialmente depois do que acontecera no dia anterior, mas no entanto, lá estava ele - Tiago – do outro lado da porta, que embora ostentando um olhar receoso não deixava de ser o rapaz mais lindo a face da terra, para Raquel, embora ela deixasse esse tipo de pensamentos para o seu subconsciente. Quando Tiago finalmente ergueu o olhar, entreolharam-se, estavam ambos com demasiado receio para se cumprimentarem, pelo que Raquel foi buscar a mala, e pouco depois já seguiam rumo à escola, no entanto ao contrário dos outros dias, não trocaram uma única palavra, porque embora o silêncio fosse deveras constrangedor, nenhum deles sabia ao certo qual a reacção do outro quanto à conversa que teriam de ter.
O dia passou pesaroso, o teste de história pareceu 10 vezes mais difícil do que de costume, e a aula de ITIC, parecia nunca mais ter fim, no entanto a aula de matemática foi a pior, não se sabia bem se por ser a última aula e tanto Raquel como Tiago, estarem mortos por ter de deixar de fingir que a mentira não se tornara verdade, ou pelo facto de essa aula ser a que tinha exercícios mais difíceis, o que os obrigava a estar mais presentes, tendo de fazer um esforço para não pensarem noutra coisa, ou ainda se era pelo facto de estarem juntos, e naquela precisa aula terem de fazer uns exercícios em grupos. Quando finalmente tocou, toda a turma suspirou de alívio por aquele inferno ter acabado e saíram da sala o mais depressa possível, antes que o professor se lembrasse de marcar ainda mais trabalhos.
Miky quase corria para casa, estava sozinha e por isso não tinha de acompanhar o passo de ninguém, regra geral, todas as pessoas que fossem com Raquel para casa a pé, tinham um passo mais lento, e por isso ela até estranhara, voltar a andar tão depressa. Tirou os phones e o mp3 da mala, para se entreter com alguma coisa no caminho para casa, e para não começar a pensar no dia anterior!




"'Bia"'...

O Jogo...





- O que tens? Estás a tremer! – Assustou-se Raquel.
- Sabes o que é frio? – Perguntou ele, nunca escondendo aquele sorriso maroto. Raquel também sorriu.
-Sabes o que são casacos? – Ripostou esta, ao que Tiago lhe pôs a língua de fora em forma de desafio. Raquel respondeu-lhe com um ataque de cócegas, mas ele, para não variar, foi mais rápido, e conseguiu prende-la, num abraço, impedindo-a de se mexer e ganhado, por isso, mais uma batalha. Pouco depois largaram-se para que não fosse ser o professor de Educação física a encontra-los, e a ralhar-lhes. Cinco minutos depois já estavam todos dentro do ginásio e faziam o aquecimento, enquanto o professor fazia equipas de dois, para que depois pudessem jogar badmington. Para sorte de ambos, eles tinham ficado na mesma equipa. Mas, em contrapartida, iriam jogar contra a equipa de Bia e Lua. O apito soou e começaram vários jogos ao mesmo tempo. Tiago lançou o volante, e este voou em direcção a Lua:
- Sabes Bia, Badmington e como a vida, mesmo que estejas a jogar com amigos, eles iram sempre lutar por te por abaixo! – Principiou Lua.
- Estás a querer insinuar alguma coisa? – Perguntou Tiago exaltado pela maneira como Lua falara.
- Talvez sim, talvez não. – Ripostou Lua.
- Se a carapuça serviu. – Continuou Bia, e mandou com a raquete com toda a força no volante. Raquel recuou um pouco e acertou em cheio no volante, e este mudou imediatamente de direcção.
- Se tens alguma coisa a dizer, ao menos diz logo, estás a ser muito corajosa a mandar bocas, ao menos diz-nos o que se passa! – Replicou Miky.
- Pelo menos somos mais corajosas do que tu! Pensei que se gostasses da mesma pessoa que nós que serias sincera! – Acusou Lua. Mudando a direcção do volante para o campo de Raquel e Tiago.
- E seria! Se gostasse da mesma pessoa que tu… o que não é o caso! – Lançou Miky, e o volante mudou novamente de direcção indo tão de força que nem Lua nem Bia o viram e por isso Raquel conseguiu marcar ponto para a sua equipa. Tiago voltou a servir, e desta vez o volante foi na direcção da Bia:
- Mmmm… Então tu beijas as pessoas por simples e puro gozo…- Ironizou Bia. Mandando uma pancada no volante.
- Do que é que tu estas para ai a falar? – Perguntou Tiago, devolvendo o volante a Bia que lhe mandou novamente uma pancada desta vez mais forte.
-Sim, ou vão-nos dizer que já nem sequer se lembram? – Perguntou Bia irada.
- Mas do que é que nos haveríamos de lembrar? – Perguntou Raquel, já sem paciência para aqueles joguinhos de palavras e quase falhando o volante.
- Não sei, talvez do beijo que deram! – Acusou Bia finalmente, projectando o volante. Tanto Raquel como Tiago ficaram estupefactos ao descobrirem que tinham dado um beijo, pelas observações de Bia, e por isso foi a vez de Lua servir. Tiago recuperou mais rapidamente do choque, e conseguiu evitar que Lua fizesse ponto, e perguntou logo de seguida:
- Mas que beijo? Nós nunca nos beijamos! – Escarneceu.
- Eu vi! – Disse Bia como um criancinha - À frente da primária? Faz-vos lembrar alguma coisa?
- Faz, eu ia caindo e ele agarrou-me mais nada! Mas já agora, deste para espia, foi Bia? – Ralhou Miky, lançando o volante na direcção da vítima.
- Ah boa, agora estás tão ocupada com o teu novo amigo que nem sequer te lembras onde moro? – Disse Bia incrédula.
- Esta bem, ela pode-se ter esquecido, onde moras, por causa desta confusão, mas ainda esta por explicar o beijo que não demos e que tu dizes que viste! – Entreviu Tiago, dando um salto e projectando o volante para o chão do campo do inimigo.
-Mas vocês estavam tão próximos! É impossível não se terem beijado! – Afirmou Bia desesperada.
- Pois para a próxima talvez fosse melhor conferir antes de espalhares rumores, podes fazer uma asneira enorme! – Concluiu Miky, marcando mais um ponto para a sua equipa. O apito soou e os jogos acabaram. Miky sentia-se traída, destroçada, e abandonada, mas sabia que não o estava. Tiago estaria sempre a seu lado para a apoiar, pelo menos por enquanto. O professor foi perguntando quem tinha ganho, e foi ai que Miky percebeu que tinha feito um grande progresso quanto ao estado da sua amizade com Bia, pois esta, parecia demasiado desanimada, para que aquilo se devesse apenas ao jogo de badmington, aliás Bia nunca fora má perdedora e foi a sua resposta que deu luz ao sorriso que apareceu no rosto de Raquel:
“ A Raquel e o Tiago ganharam, em todos os jogos da maneira mais justa possível, nós é que deveríamos voltar a ler as regras.” Foi o que Bia respondeu, era obvio que tinha percebido que errara e que Raquel é que devia ter motivos mais do que suficientes para se chatear com ela. Depois de tomar banho, Raquel foi almoçar a cantina da escola e pouco depois foi se juntar com Tiago que já estava junto do pessoal da turma. Pelos vistos, Raquel tinha perdido alguma coisa, pois não se lembrava de os colegas terem percebido que estavam errados a menos que tivesse acontecido algo entretanto.
- Desculpem lá, nós não devíamos ter feito isto, mas parecia bater tudo certo! – Dizia Leo, quando Raquel lá chegou.
- Não faz mal! – Garantia Tiago. – Quando é que vocês vão parar de pedir desculpas?!...é que já irrita! A sério!
Miky fez uma careta e perguntou:
- Perdi alguma coisa?
- Muita coisa – confirmou Tiago o rir. – Já está tudo esclarecido!
- Iupii. – Ironizou Raquel, ao que todos se riram. Miky também se queria rir, mas sentia que aquela historia ainda não tinha acabado, embora agora todos estivessem bem, embora tudo se tivesse resolvido, pressentia que viriam problemas bem maiores, e que estes não se demorariam a chegar. Na aula de teatro, conseguiram finalmente ensaiar a peça toda, passando as partes dos beijos: Tanto Raquel como Tiago achavam que o tema de eles se terem beijado ainda estava muito fresco para agora o fazerem mesmo, apesar de ser em teatro, iria com certeza dar barraca.



* * *


Seguiam calados, pelo constrangimento de terem feito de par romântico mesmo que num teatro, preocupados, pelo que se seguiria, mas seguros de se terem um ao outro para se apoiarem, mas seria sempre assim, uma amizade tão fresca, poderia acabar com um pequeno terramoto, se dessem um passo em falso, poderia faze-los cair no precipício. A única base da sua amizade era acreditarem um no outro, e isso poderia ser facilmente destruído, e depois, o que aconteceria? Já, passavam das cinco horas, e normalmente, eles seguiriam para casa, mas qualquer coisa, não se sabe bem o quê, fê-los ir para o parque. Tiago foi o primeiro a chegar e por isso deitou-se com a cabeça encostada ao choram, Raquel por sua vez achou mais seguro ficar em pé, para que não voltasse a ter tonturas.




"'Bia"'...

Contínua inoportuna... XD





- Raquel!
- Olá, tudo bem?
-Sempre… E agora ainda melhor! – Respondeu Mateus, ao que Raquel fez um cara de quem não percebeu, no entanto Mateus não se deu ao trabalho de explicar – Dás-me o teu mail?
- Sim… raquel_rsa@hotmail.com
- RSA? O que significa? – Perguntou Mateus curioso.
- Raquel Santos Almeida, o meu nome. – Explicou ela.
- Ah, pois… Queres vir para ao pé de nós? O teu irmão estava mesmo para te ir buscar a casa do teu amigo. – Explicou ele.
-Está bem – concordou Raquel, no entanto houve algo na maneira como Mateus tinha proferido a palavra “amigo”, que ela não gostou nada. Quando chegaram a sala, Ricardo apresentava um ar zangado e paternalista, no entanto esta mascara caiu quando olhou para a cara da irmã.
- Eu não acredito! Mateus diz-me uma coisa, eu tenho cara de palhaça, ou alguma coisa escrita na testa que tenha piada? – Perguntou Miky na brincadeira, ao que Mateus não respondeu, e em vez disso foi Ricardo a falar:
- Já viste as horas, para a próxima vou lá e trago-te, 17 horas não são 17:15!
Raquel atirou uma almofada contra o irmão: Pareces agora a mãe! Tu também nunca chegas as 17 quando vens da casa da Carlinha!
- Pois mas eu sou mais velho! - Ripostou, e outra almofada lhe bateu na cara, mas desta vez foi Mateus o autor do crime. – Olha, olha, grande amigo que este me saiu! Preferes defender a minha irmã a me defender a mim? – Ironizou Ricardo, ao que Mateus respondeu com um encolher de ombros, entreolharam-se, e passado um momento de silêncio absoluto só se houve um grito do Mateus: MOCHE AO RICARDO!;
Raquel teve apenas tempo para ver Mateus atirar-se para cima de Ricardo, ambos a caírem no chão e logo a seguir atirava-se também para cima de ambos, depois pouco ou nada percebeu, por causa da confusão de braços e pernas que estavam juntas e só se deu conta de que estava cercada e que ia sofrer um ataque de cócegas quando as sentiu, e quando finalmente se conseguiu levantar, começou a correr atrás do Mateus para lhe bater pelo que tinha feito. Pouco depois este teve de se ir embora, e Miky teve de aturar as imensas, mas mesmo imensas perguntas do irmão sobre a tarde passada em casa de Tiago, e para grande felicidade dela a sua mãe chegou pouco depois e o interrogatório parou. Depois do jantar Raquel foi para o seu quarto para fazer a mala para o dia seguinte.
* * *
No dia seguinte Raquel foi acordada pela música de que menos gostava – “Ao ritmo do flow” o que não contribuiu muito para o estado de Humor, não sabia porquê mas tinha um pressentimento de que aquele dia seria péssimo, não só por a tarde do dia anterior ter sido espectacular, mas também por achar que apenas nos contos de fadas é que depois de uma tarde tão boa o dia seguinte poderia ser bom. O estado do tempo também não ajudou muito, as nuvens carregadas ameaçavam rebentar a qualquer momento, e escondiam o sol, que parecia não querer aparecer naquele dia. Quando saiu de casa deparou-se imediatamente com Tiago e perguntou-se a si mesma se este estava à sua espera há muito tempo…
Quando chegaram a escola, deparar-se logo com Bia e Lua num dos seus passeios diários, e foi aí que Raquel percebeu porque se sentia tão apreensiva quanto aquele dia. Tinha se esquecido completamente de que os colegas a estavam a ignorar a ela e a Tiago por um motivo que era desconhecido a ambos. Infelizmente Miky sabia que aquele assunto não podia esperar mais, e que teria de ser resolvido naquele dia, coisa que Tiago também percebeu:
- Podemos tratar disto já…Temos 45 minutos livres. – Sugeriu Tiago, mas Raquel abanou imediatamente a cabeça. Sabia que o assunto envolvia ambos, mas não queria que Tiago estivesse com ela quando falasse com as amigas. – Ambos estamos envolvidos, sabes bem disso! – Reclamou Tiago como que lendo o pensamento de Miky.
- Eu sei. Mas…não me apetece discutir logo de manhã… - mentiu Raquel, na verdade ela até queria despachar o assunto. Mas naquelas circunstâncias, não. Seguiram na direcção oposta à de Lua e Bia e refugiaram-se num gabinete, onde podiam falar a vontade:
- Temos de falar com elas! – Lançou Tiago.
- Tenho de falar com elas! Tu não tens nada a ver com isto. Não fizes-te nada de mal. – Contrariou Raquel. Ele abanou a cabeça em sinal de discordância e aproximou-se mais de Miky agarrando-lhe em ambas as mãos para que esta o ouvisse e não pudesse fugir:
- O problema e de ambos, aliás isto deve ser tudo culpa minha! Por minha causa é que vocês começaram a chatear-se. Como é que podes dizer que não fiz nada quando sou eu a fonte dos problemas. – Irritou-se ele. A princípio Miky ficara atordoada, como sempre, pela proximidade a que estava de Tiago, mas as suas palavras fizeram Raquel revoltar-se. Era obvio que ele não era a fonte do problemas… Como poderia ser?
- Ora, não te culpabilizes por algo que nem sabes o que é! – Ordenou ela.
- E tu sabes? Sabes tanto quanto eu! – Afirmou Tiago. Continuavam de mãos dadas, e agora estavam tão próximos que conseguiam sentir o batimento do coração um do outro. Miky olhou Tiago nos olhos e todos os seus argumentos se esvaíram. A custo desviou o olhar e tentou afastar-se dele, mas o segundo objectivo não foi bem sucedido pois Tiago agarrava-a com uma força colossal. – Fizeste tanto quanto eu…sabes tanto quanto eu…és tão culpada quanto eu…e por isso temos de resolver isto Juntos! - Continuou Tiago. Miky parou de se debater e acenou com a cabeça, não valia a pena discutir. Sabia que ia acabar por perder a razão. Mantiveram-se ali, de mãos dadas, um contra o outro, olhar fixo nos olhos um do outro e com expressões de compreensão e companheirismo, mais próximos do que nunca, no local em que menos provavelmente alguém os encontraria, ou pensaria em encontrar, no entanto, de repente a porta escancarou-se e a continua ficou estupefacta a olhar para ambos. Quando se aperceberam do que tinha acontecido Tiago largou imediatamente Raquel e esta afastou-se o mais que o pequeno gabinete o permitia.
- Já lá para fora, se não querem que faça queixa ao director! – Ralhou ela, e embora ambos não tivessem feito nada demais, cumpriram a ordem mantendo-se o mais afastados e sérios possível enquanto estavam ao alcance do olhar fulminante da contínua, mas quando viraram a esquina escangalharam se a rir, das coisas que aquela “mulherzinha” provavelmente tinha pensado que eles estavam a fazer. Tocou às 8:30h para entrada, mas eles tinha aulas apenas 45 minutos depois e por isso, foram para o bar, para se poderem reconfortar com um pouco de calor depois de uma conversa tão fria como escaldante. Quando chegaram ao bar viram logo a mesa em que a sua turma se encontrava, mas ninguém fez menção de os chamar para lá, pelo que nenhum deles fez questão de propor a hipótese de se juntar aos amigos. Foram para a mesa ao fundo do bar, ao lado do quiosque, e ficaram a olhar-se minutos sem fim, à espera que algum tivesse tema para conversa, a espera que algum interrompesse o silêncio que tanto incomodava um como o outro.
- Está na hora. – Acabou Tiago por dizer, quando chegou a hora de ir para a aula. Se fosse qualquer outra aula Raquel tinha tido uma vontade enorme de se “baldar”, mas as aulas de moral eram sempre diferentes, sempre divertidas, e sabia que lhe faria bem ter um pouco de diversão naquele dia chuvoso. Quando entraram na sala de aula foram recebidos como sempre, com extrema exuberância e muito carinho, o que os fez sorrir, ao menos ainda tinham alguém que não os olhasse de lado, mal humorado. Depois de todos terem entrado, o professor explicou-lhes o jogo que iriam fazer naquele dia: eram uma espécie de corrente eléctrica, e um de deles era o gerador, e apenas esse podia mudar o sentido da corrente, alguns eram aparelhos eléctricos, o que permitia saber o sentido da corrente, e uma pessoa ficava de fora e tentava descobrir quem era o gerador. Foi um jogo divertido, acima de tudo porque, durante o tempo em que se camuflaram de objectos ninguém fez comentários nem ninguém olhou de lado quer para Miky quer para Tiago. E o facto de o Joel (aquele pateta em pessoa da turma, que adorava galinhas) ter feito de maquina de lavar, de uma maneira ridícula. A aula passou tão depressa que nem deu tempo para se rirem em condições, e quando deram conta disso, já estavam lá fora, expostos à gélida chuva, que caia sobre eles como se os quisesse magoar. A aula de português foi bem menos interessante, mas o que mais assustava Miky era o tempo que teria de passar no balneário sem a presença reconfortante de Tiago. Inspirou fundo antes de entrar, e depois disso não voltou a tirar os olhos do chão até voltar a sair daquele cubículo. Saiu o mais depressa que pode do balneário feminino e foi para ao pé do ginásio, onde felizmente estava Tiago, já equipado:




"'Bia"'...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

"Ouve o meu Coração!"...


Miky revirou os olhos e fez ouvidos moucos. Era definitivamente uma patetice digna da maior palhaça a superfície da terra. Pegou nos livros e cadernos que correspondiam as disciplinas a que iria ter teste na semana seguinte e saiu de casa. Era estranho, o facto de se dirigir pela primeira vez na direcção daquela pequena casa, naquele pequeno canto, naquela pequena rua, pois durante tantos anos Raquel nunca se tinha dirigido aquele sítio, era como se tivesse estado invisível durante os catorze anos que passara ali, desde que nascera, e que finalmente, com a chegada de Tiago, Miky passasse a conseguir ver, não apenas olhar, era como descobrir coisas novas em recantos já mais do que revistados e investigados. Em muito menos tempo do que o que esperava, Miky alcançou o outro lado da rua, conseguido ultrapassar a barreira que provavelmente a impedira de ir ali até aquele momento. Levantou a mão, para bater à porta, mas deteve-se. Seria aquilo boa ideia? Afinal tanto Lua e Bia gostavam, ou melhor, sentiam-se atraídas por Tiago… Mas por outro lado… Já decidira que ninguém a impediria de manter uma amizade com Tiago, não podia desistir agora…Quando, finalmente a discussão na sua cabeça acabou, decidiu bater à porta, mas alguém se antecipara, e já abria antes, sequer de Miky ouvir o som da sua mão a bater na porta, seria aquilo telepatia? Ambos sorriram ao constatar aquele cómico facto e Tiago deu um passo atrás, para que Raquel pudesse entrar. A pequena casa que por fora aparentava ser, não tinha nada a ver com o interior, um amplo hall de entrada, com um tapete de Arraiolos foi a primeira coisa que Miky viu, seguiram pela corredor, passaram por um porta que pelo pouco que Raquel viu ia dar a cozinha, e por outro que ela conseguiu claramente ver que era a casa de banho, (não são todas as divisões da casa que tem um sanita!), passaram por outra porta, que Raquel não sabia onde ia dar, e ao fundo do corredor, havia um cruzamento. Tiago seguia em frente, e por isso era um bocado difícil Raquel perder-se, era só preciso seguir um monumento ambulante. Quando abriu a porta um brisa suave fez o cabelo de Raquel voar para traz, a janela do quarto estava escancarada, e por causa do vento (nada mais), Tiago viu-se obrigado a fechar a porta do quarto, enquanto isso Miky observava o que a rodeava…Era totalmente diferente do quarto do irmão. O quarto de Tiago: arrumado, com vestígios claros de um apaixonado por musica e filmes, e com o portátil exemplarmente colocado em cima da secretaria, não fazia em nada lembrar o quatro de Ricardo: completamente desarrumado. Era um quarto pequeno, no qual Tiago conseguira colocar mais coisas do que qualquer outra pessoa conseguiria, e mesmo assim sobrava suficiente espaço para fazer uma guerra de almofadas. A cama de solteiro, com três almofadas (uma verde uma azul e outra cor de laranja) sobre o edredão, também azul, encostada a uma parede com uma estante por cima, cheia de livros, CD’s, DVD’s, entre outros, ocupava uma ínfima parte do quarto. O armário encaixado na parede, quase passava despercebido a Miky, a secretaria encostada a outro canto, a televisão segura em suportes especiais que a faziam estar quase no tecto, e a janela, enorme, do lado oposto ao da porta, e nesse canto da parede, estava repousada uma guitarra, estrondosamente linda, como que desafiando o dono para mais uma tarde de musica.
- Senta-te… - Propôs Tiago. Miky não pensou duas vezes, e obedeceu-lhe imediatamente. – Então…por onde começamos?
- Mmm… Geografia? Pode ser?
- Ya, bora lá… - dito isto, Tiago levantou-se de um salto e foi buscar os livros e cadernos da disciplina. – Então os objectivos para o teste são… - estudaram meia hora sem interrupções de geografia, e quando ambos tinham a certeza de já não ter duvidas e saberem a matéria relativamente bem, Tiago propôs fazerem os trabalhos de casa de matemática, que, como sempre eram imensos! Em cerca de 15 minutos ele conseguiu fazer todos os exercícios, mas Raquel precisou de um pouco mais de tempo para se desengonçar com o ultimo sistema de equação de 1º grau a duas incógnitas, e também de um pouco de ajuda, mas isso ninguém precisava de saber. Partiram para Historia, a ai foi Tiago que precisou de ajuda, pois a atenção que este prestava as aulas de história, era pouca ou nenhuma, na opinam deste, a historia era importante, mas para quê perder tempo a estuda-la quando podiam fazer descobertas novas, podiam ir mais alem, mantendo o conhecimento vindo do passado, mas não se prendendo a ele! Raquel concordava com ele, mas era apenas mais aquele ano que teria de estudar historia, pois não fazia tenção de ir para cursos que a contivessem, alias, Miky estava quase certa de que o seu futuro estava escondido nas ciências, mas mesmo assim não queria estragar a sua media por causa de uma disciplina ou outra que gostava menos! No fim de enumerarem todos os objectivos, mudaram de disciplina, e desta vez foi Tiago que escolheu, parecia que estavam a jogar um joguinho de crianças de 4 anos, uma vez escolho eu, outra vez escolhes tu…
A disciplina escolhida desta vez foi uma de que ambos gostavam e em que ambos eram bons, ou seja inglês. Uma disciplina que muitos da sua turma detestavam, ou por ser a directora de turma a professora de Inglês, ou porque não percebiam nada, etc. No entanto tanto para Raquel como para Tiago, o Inglês era algo simples, que não era preciso estudar para saber. Ambos o percebiam muito bem, por isso demoraram se pouco, e partiram logo para português. Quando finalmente acabaram de estudar, Tiago foi buscar algo para petiscar à cozinha, e Miky aproveitou para continuar a contemplar o quarto, desta vez dirigiu-se a janela: na parte de traz da casa havia um pequeno jardim com um baloiço feito com o pneu de um carro, algumas flores ordeiramente plantadas e mais ao fundo um quintal com árvores de fruto, couves batatas, alfaces, etc. Depois de ver tudo o que tinha para ser visto no jardim, voltou a sua atenção para o quarto novamente, viu os CD’s e DVD’s com mais pormenor, e quase se assustava quando Tiago entrou disparado no quarto.
- Parecia… - brincou este. Este pegou no comando em cima da secretaria e ligou o rádio. Miky voltou a sentar-se e ia para pegar num copo para por sumo, quando viu que Tiago se tinha esquecido de arrumar uma folha, e não fosse esta sujar-se, voltou-a para ver o que tinha escrito, a principio pensou tratar-se de um texto sobre alguma disciplina, mas depois percebeu que estava escrito como se fosse um poema, ia começar a ler e puff, o papel desapareceu-lhe da mão:
- Oh, vá lá deixa-me ler! – Pediu Raquel.
- Porque é que haverias de querer ler uma coisa destas? – Desvalorizou Tiago.
Raquel fez de conta que pensava em argumentos possíveis:
- Mmmm…porque foste tu que escreves-te…
- Ninguém te garante isso! – Contrapôs ele.
- É tua letra – reclamou Miky – continuando, porque sou cusca – Tiago não conseguiu evitar um sorriso – Oh, anda lá! Porque é que eu não posso ler?.... Diz mal de mim? – Ironizou esta. Tiago abanou a cabeça e voltou a entregar a folha a Raquel. – O que é? Um poema? Para quem? – Brincou ela.
- É… uma canção… - Acabou por confessar Tiago.
- Podes canta-la? – Perguntou Miky, esperançada. – Please!
- És impressionante, uma pessoa dá-te uma mão e tu queres logo o braço inteiro, se não for logo o corpo todo!
- Então isso quer dizer que cantas? – Perguntou Miky ignorando a insinuação de Tiago.
- Tenho outra hipótese? – Implorou ele. Raquel reflectiu um bocado sobre o assunto, embora já soubesse a resposta:
- Sempre posso passar o resto dia e por ai a fora a pedir-te – Propôs. Tiago voltou a abanar a cabeça e foi buscar a guitarra, enquanto Miky batia palmas feita histérica e perguntava se havia pipocas. Tiago riu-se e começou a tocar, só pelo instrumental, Miky já dava um vinte aquela música, numa escala de 0 a 20, então quando ele começou a cantar…uii… a escala de Raquel rebentou e ficou reduzida a cinza, não só pela voz de Tiago mas também pela letra da música:



Abro os olhos
Vejo o céu
Este é um daqueles momentos
Em que eu desejo ser eu

Paro o tempo
A pensar
Que neste momento
Seria bem melhor estar noutro Lugar
Que neste momento
Não te tenho aqui a cantar

Porque quando queremos viver
Temos de aprender
A perder
Mas tantas vezes é mais fácil fugir
Tantas vezes é mais fácil fingir

Ouve esta canção
Sou eu que estou a dizer
Ouve o coração
Escuta o que não queres ouvir
Diz-me o que fazer
Quando não estás aqui
Vive por viver
A vida, por ti

Ouve esta canção
Ouve o coração
Sou eu que estou a dizer
Escuta o que não queres ouvir
Diz-me o que fazer
Quando não estas aqui
Vive por viver
A vida por Ti!

Fecha os olhos
Pensa em mim
Devolves o sorriso
Que procurei por aí

É fácil sorrir
É fácil chorar
Difícil e ser
O que queres sonhar

Ouve esta canção
Sou eu que estou a dizer
Ouve o coração
Escuta o que não queres ouvir
Diz-me o que fazer
Quando não estás aqui
Vive por viver
A vida, por ti

Ouve esta canção
Ouve o coração
Sou eu que estou a dizer
Escuta o que não queres ouvir
Diz-me o que fazer
Quando não estas aqui
Vive por viver
A vida por Ti!




Quando terminou, Tiago pousou cuidadosamente a guitarra. E voltou a observar Raquel, esta permanecia boquiaberta, impressionada pelo que acabara de ouvir, no entanto Tiago parecia não perceber que Miky estava impressionada e não decepcionada:
- Eu sabia que não ias gostar! – Resmungou ele, ao que Miky começou a rir-se, e Tiago fez uma careta – disse alguma piada? – Perguntou confuso.
- Não…disseste foi uma grande asneira, como é que é possível não gostar da tua música! Está linda! Fantástica! Espantosa! Maravilhosa!
- Olha que eu começo a ficar convencido! – Avisou ele, também a rir – Mas agora a sério. Gostas-te mesmo?
- Ainda não deu para perceber que sim?... Não sabia que disfarçava tão bem! – Confirmou ela. – Qual é o nome, da musica? – Perguntou curiosa.
-Ainda não escolhi, pensei em “ouve esta canção”, mas acho que falta alguma coisa… tens ideias?
Miky pegou no papel e voltou a ler:
- “Ouve esta canção, ouve o coração”, ou, talvez se lhe quiseres atribuir um sentido mais romântico: “Ouve esta canção, Ouve o meu coração”? – Propôs pouco convencida.
- “Ouve esta canção, ouve o meu coração” – Repetiu Tiago – Perfeito! – E desataram a rir, não sabendo bem qual o motivo de tanta alegria. – Supostamente, isso é um dueto – Acabou ele por confessar. E reflectiu mais um pouco, e depois de repente, e como teria dito Bia: “Fez-se luz”, e Tiago levantou-se, tirou duas canetas do estojo de Raquel, na folha da música e sentou-se na secretária, quando voltou entregou a folha a Miky olhou estupefacta. Por que raio teria Tiago sublinhado a letra da musica com duas cores diferentes? Que sentido é que isto fazia? Mas a resposta veio antes de Miky conseguir perceber o que se passara nos últimos segundos: A tua parte é a que esta sublinhada a Amarelo, e a minha é a que esta a vermelho.
- Ah? – Foi a única coisa que Raquel conseguiu dizer visto que não estava a perceber nada.
- A música que escrevi é um dueto, e por isso pensei que pudesses cantar uma parte e eu outra, ou seja, a tua parte é a que esta sublinhada a amarelo e a minha é a que esta a vermelho! – Explicou, cheio de esperança. No entanto Miky continuou a não conseguir dizer nada, sendo a única coisa que disse, um: Abuu. Com isto Tiago voltou a ir buscar a guitarra, e foi então que Raquel se lembrou que sabia falar:
- Nem penses. Eu….não sei cantar. - Interpôs ela.
- Então aprendes… - Brincou Tiago, e ao perceber que Raquel ia regatear, lembrou-a – eu não tive outra hipótese e tu também não vais ter! – E começou a tocar e a cantar, ajudando Raquel a cantar em algumas partes e deixando-a cantar a solo, noutras.
- Foi assim tão difícil? – Perguntou Tiago, sabendo já a resposta, no entanto Raquel trocou-lhe as voltas:
- Não, não foi difícil de todo, mas supostamente em vim cá para estudar, não para cantar.
- É apenas o intervalo das 5! – Gozou ele. E foi então que Raquel olhou alarmada para o relógio, já eram 5 horas! Como o tempo tinha passado depressa:
- Tenho de ir. Adeus até amanhã. - E saiu disparada do quarto. Tiago seguiu-a, sem dizer nada, mas passado um bocado percebeu que Miky se ia enganar no caminho:
- É para a outra porta! – Indicou, ao ver que Raquel se dirigia para a sala, e não para o hall, esta passou por ele, e não disse nada, ao que Tiago a puxou pelo pulso para se despedir. Subitamente Raquel apercebeu-se de que deveria ter comido alguma coisa no lanche, pois agora sentia-se um pouco tonta, e não queria culpar a proximidade a que estava de Tiago por isso. Este deu-lhe um beijo na testa e disse-lhe que a iria buscar no dia seguinte para irem juntos para a escola, ao que ela concordou, e correu para casa. Se a sua mãe já tivesse chegado iria ter de dar umas boas explicações. Por sorte, quando bateu a porta que lha abriu foi Mateus, ao que ela percebeu que os pais ainda não estavam em casa.


"'Bia"'...