
Conversaram durante o que lhes pareceram ser alguns segundos, mas que na realidade foi meia hora:
- Estás a ver! – Dizia Tiago. – As coisas acabaram por se resolver quase por si próprias!
- Pois, mas não sabes o que me custou falar assim, para a Bia e para a Lua! – Contrapôs Miky. – Vais me dizer que foi a coisa mais fácil do mundo?
- Sim, já fiz coisas bem mais difíceis! – Mentiu Tiago num tom tão irónico que até um surdo perceberia que ele concordava com Raquel, e que apenas estava a gozar com ela. Com isto, Miky esqueceu-se do seu problema das proximidades e pôs se a fazer cócegas a Tiago, este, apôs uns momentos de completo riso, conseguiu pôr Miky ao chão e prendeu-lhe as mãos para que esta não pudesse continuar a fazer-lhe cócegas, estava, praticamente em cima dela, no entanto não a esmagava, porque conseguia suportar o peso do seu corpo todo nos joelhos, no entanto Raquel içou a perna e magoou Tiago sem intenção. Este perdeu as forças e de repente os seus rostos encontravam se a uma ínfima distância de milímetros, subitamente Raquel apercebeu-se de que tinha feito asneira, e foi ai que começou a sentir o chão a roda. Tentou desviar o olhar, mas não conseguiu, tentou arranjar forças para virar a cara, mas temia o que poderia acontecer se o fizesse. Tiago conseguia manter-se a uns milímetros de distância, porque continuava a segurar-se nas pontas dos dedos, mas ambos sabiam que essa força estava prestes a ceder, pois havia uma força muito maior que fazia com que Raquel e Tiago se aproximassem cada vez mais. Subitamente os seus olhares cruzaram-se, e perceberam que ambos ostentavam uma expressão de medo, pelo que poderia vir a acontecer. Algo surreal aconteceu, pois a lei da gravidade foi dar uma mãozinha a atracão de pólos opostos, e juntas conseguiram vencer Tiago e fazer com que os seus lábios tocassem nos de Raquel, nenhum condenou o outro por ter continuado beijo, e secretamente, nenhum queria que este acabasse depressa, mas aquilo que viviam, aquilo que sentiam era mais do que um sonho, mais do que um conto de fadas, era interdito, mas naquele momento, as leis, as normas, tudo deixou de fazer sentido, na terra só existiam duas pessoas, que naquele momento faziam aquilo por que mais ansiavam, mas que sabia ser o fruto proibido. Subitamente, ambos despertaram do sonho cor-de-rosa, e olharam um para o outro revoltados por saberem que não poderiam assumir o que mais queriam.
- Raquel! – Ouviu-se um grito. Ambos congelaram. Se alguém os tivesse visto, iria ser um grande problema. – Raquel, estás em casa? – Ouviu-se novamente. Ambos ficaram um pouco menos tensos, se quem quer que fosse estava a perguntar aquilo seria porque, não sabia de Raquel. Entreolharam-se desesperados, e ouviu-se novamente chamar por Miky:
- É melhor ires lá, eu também já devia estar em casa. – Acabou Tiago por dizer. Raquel lançou-lhe um último olhar de compreensão e foi ter com a sua visitante.
- Raquel! Pensei que não estivesses em casa! Ufa… - Suspirou Bia.
- Bia! O que é que fazes aqui? – Perguntou Raquel com um tom de voz que pretendia ser casual, mas que aos ouvidos de Miky lhe soou muito preocupado.
- Mmmm, eu… – começou Bia hesitante. – Eu acho que te devo um pedido de desculpas! – Raquel foi apanhada de surpresa com aquilo, e deixou de estar distraída passando a tomar mais atenção ao que Bia dizia: Afinal de contas, a culpa disto tudo é minha, e do meu estúpido egoísmo! Devia ter falado contigo antes, mas não! Palerma, fui logo contar tudo a Lua e pimba! A Turma inteira ficou a saber de uma coisa que nem se quer é verdade! Desculpa, eu fui mesmo estúpida, agi mal! Como se tu e o Tiago alguma vez pudessem ter alguma coisa! Como se alguma vez se pudessem vir a beijar, fosse por que razão fosse, vocês até evitaram isso em teatro! – Desabafou Bia mais para si do que para Raquel, mas aquilo apanhou-a ainda mais desprevenida do que tudo o resto: “Como se tu e o Tiago alguma vez pudessem ter alguma coisa! Como se vocês alguma vez se pudessem vir a beijar, fosse por que razão fosse!” Raquel queria dizer algo a Bia para que ela não se sentisse culpada, queria faze-la entender que aquilo tinha sido apenas um mal entendido, queria apenas faze-la parar de falar, porque estava a começar a sentir uma enorme por saber que tinha de lhe mentir, tentou acalmar Bia mas parecia que tinha qualquer coisa entalada na garganta e não conseguia falar, Bia, ao perceber que Miky não lhe respondia, pensou logo que ela estivesse demasiado chateada e que fosse fazer voto de silêncio, ao que começou novamente a pedir desculpas, até que Raquel conseguiu reagir:
- Não faz mal, a sério, já passou! – Tentou Miky dizer com um tom de confiança mas a única coisa que conseguiu foi um murmúrio, felizmente Bia percebeu o sentido que Miky tentara dar as suas palavras e logo acrescentou:
- Olha este fim-de-semana, queres ir para minha casa? Para te poder recompensar pelo que fiz? – Perguntou Bia.
-Não é preciso nada! – Começou Raquel por tentar escapar, mas Bia começou a fazer beicinho, e Miky acabou por concordar. Depois de combinarem tudo, Bia despediu-se e foi se embora, e Raquel quase correu para casa, não fosse aparecer mais alguém que a fizesse sentir mal, com os discursos sentimentalistas de desculpas. Em alturas normais Raquel até conseguia lidar bem com isso mas nesse momento, não estava com a disposição devida, entrou no quarto atirou a mala para cima da cama, e começou a andar as voltas:
- Estúpido parque, estúpida árvore, estúpida relva, estúpida cabeça, não sabias ter-te desviado? Estúpida boca: para que é que existes? Estúpido rapaz, como se não te conseguisses aguentar mais tempo de maneira a arranjar uma solução! Estúpido Beijo! – Despejou Raquel furiosa, no fundo ela sabia que nada daquilo fazia sentido, ninguém tinha culpa, mas era mais fácil culpar os outros! Raquel atirou-se para cima da cama e deixou-se ficar lá a arranjar todos os insultos possíveis para o que tinha acontecido, mas acabou por desistir porque por mais que tentasse todos os insultos que arranjava para Tiago pareciam-lhe injustos, no fundo ela não o culpava, estava apenas furiosa por Bia ter ido logo naquele momento falar com ela!
Sexta-feira amanheceu sombria, e Raquel não previa que o dia fosse melhorar, iria ter um teste de Historia, e embora tivesse estudado o suficiente para tirar uma boa nota, parecia-lhe que o dia em que estudara já fora há demasiado tempo, e temia não se lembrar de nem metade da matéria! Mas o maior medo de Raquel era definitivamente, o momento em que voltaria a ver Tiago, como é que ele reagiria? Não fora de maneira alguma culpa sua o facto de aquilo ter acontecido, mas…e se Tiago achasse que sim? E se perdesse o amigo, o Único amigo com que agora contava? Miky abanou a cabeça e tentou tirar aquele pesadelo da cabeça, mas isso foi impossível, vestiu-se a pressa, e foi comer qualquer coisa, tentou distrair-se ao preparar o seu pequeno-almoço, mas quase ia deixando queimar a torrada, porque aumentara demasiado, tanto a temperatura, como o tempo.
Como tinha quase a certeza de que naquele dia teria de ir sozinha para a escola, deixou-se estar mais um bocado, aconchegada no sofá, com a televisão ligada, a passar os canais, quando se fartou de carregar no botão de seguinte, parou e deixou onde estava: canal dois, definitivamente não era a melhor coisa que podia ter calhado na rifa, mas pelo menos não falava em beijos nem em mentira: se é que se podia chamar mentir ao facto de Miky não ter contado o que acontecera entre ela e Tiago uns segundos antes de Bia aparecer. Tentou concentrar-se no que o Noddy dizia, mas naquele momento mais do que em todos os outros, parecia um completa parvoíce estar a ver aquilo! Já passava das oito horas e Raquel sabia que tinha de se ir embora, não havia mais nada pelo que esperar, mas estava tão bem ali, sentada no sofá, quente, (apesar de ser apenas por fora), sem ninguém para a chatear. E ali podia gritar, pular, dizer o que quisesse, pensar o que quisesse, sem fazer expressões estranhas… Estava tão absorvida nos seus pensamentos que se sobressaltou quando ouviu bater à porta. Levantou-se a custo, um pouco curiosa para saber quem estava do outro lado da porta, mas com a certeza de não ser nada de importante, abriu a porta, e quando viu quem estava do outro lado, recuou dois passos, esfregou os olhos, para ter a certeza de que estava a ver bem, e deixou escapar um breve: Ah, de espanto. Nunca esperara, voltar a presenciar aquilo, especialmente depois do que acontecera no dia anterior, mas no entanto, lá estava ele - Tiago – do outro lado da porta, que embora ostentando um olhar receoso não deixava de ser o rapaz mais lindo a face da terra, para Raquel, embora ela deixasse esse tipo de pensamentos para o seu subconsciente. Quando Tiago finalmente ergueu o olhar, entreolharam-se, estavam ambos com demasiado receio para se cumprimentarem, pelo que Raquel foi buscar a mala, e pouco depois já seguiam rumo à escola, no entanto ao contrário dos outros dias, não trocaram uma única palavra, porque embora o silêncio fosse deveras constrangedor, nenhum deles sabia ao certo qual a reacção do outro quanto à conversa que teriam de ter.
O dia passou pesaroso, o teste de história pareceu 10 vezes mais difícil do que de costume, e a aula de ITIC, parecia nunca mais ter fim, no entanto a aula de matemática foi a pior, não se sabia bem se por ser a última aula e tanto Raquel como Tiago, estarem mortos por ter de deixar de fingir que a mentira não se tornara verdade, ou pelo facto de essa aula ser a que tinha exercícios mais difíceis, o que os obrigava a estar mais presentes, tendo de fazer um esforço para não pensarem noutra coisa, ou ainda se era pelo facto de estarem juntos, e naquela precisa aula terem de fazer uns exercícios em grupos. Quando finalmente tocou, toda a turma suspirou de alívio por aquele inferno ter acabado e saíram da sala o mais depressa possível, antes que o professor se lembrasse de marcar ainda mais trabalhos.
Miky quase corria para casa, estava sozinha e por isso não tinha de acompanhar o passo de ninguém, regra geral, todas as pessoas que fossem com Raquel para casa a pé, tinham um passo mais lento, e por isso ela até estranhara, voltar a andar tão depressa. Tirou os phones e o mp3 da mala, para se entreter com alguma coisa no caminho para casa, e para não começar a pensar no dia anterior!
"'Bia"'...


