quinta-feira, 23 de julho de 2009

Medos...






Os dias quentes despediam-se pesarosamente, e os testes chegavam para infelicidade dos alunos. Começava a notar-se que o bar da escola, a pouco e pouco ia enchendo cada vez mais, e nos intervalos, parecia-se com uma lata de sardinhas bem cheia.
O primeiro teste a ser feito era o de francês, e o pessoal da turma de Miky começava a perguntar a Cristina pelos resumos da matéria de história e geografia, visto que os testes estavam a porta. À hora de almoço, Cristina aproveitava e levava o portátil para acabar de fazer os resumos. Enquanto Lua e Rute, passavam o tempo no MSN, e no hi5.
Entretanto na aula de teatro andavam a preparar o projecto performativo para apresentar no fim do ano. Primeiro tinham pensado em trazer Camões do passado, e confronta-lo com a actualidade, no entanto havia alguns problemas:
- Este teatro vai dar muito trabalho a fazer! Já estamos quase no fim do período e ainda não escrevemos o guião! - Queixava-se Filipa.
- Stora ainda podemos mudar? - Perguntava Lua
- Sim, mas se mudarem têm de se aplicar mesmo, e convinha que o texto já estivesse escrito… - concordava a professora.
- Pois, é que, nós temos um texto escrito por uma colega nossa - continuou Lua, agarrando Bia e Miky pelo braço. – e se todos concordarem acho que era mais interessante…
- Ai temos? - Perguntou Miky confusa.
- Sim, a tua historia… - acabou Bia.
- O quê? Não, acham que eles vão querer fazer isso! – Recusou Raquel.
- Oh, vá lá, se o texto já esta escrito e se a Lua e a Bia acham interessante, não vejo qual é o problema. - Incentivou Tiago.
- Pois, ele têm razão… - concordou Leo.
- Óptimo! Vamos ler o texto e escolher as personagens? - Propôs Bia. Ao que todos se sentaram em volta dela. Quando acabaram de ler o texto, ouve um grande alvoroço, pois quase todas as raparigas queriam fazer o papel de Ana, uma dos dois protagonistas, enquanto que nenhum dos rapazes se disponibilizava para fazer de Mateus, outro protagonista. Por fim, acabaram todas por concordar que Raquel interpretaria o papel, melhor do que ninguém, e quando propuseram Leo para fazer de Mateus, todos concordaram, mas este acabou por confessar que não tinha jeito nenhum para teatro, e como não queria estragar a peça, recusou o papel, aí foi a vez de a professora falar:
- Então e tu Tiago? Podias tentar, a professora de história disse-me que tinhas boa memória, era só uma questão de treino…- propôs a professora.
Raquel quase se engasgara ao ouvir a proposta da professora, e achou por bem não continuar a beber água antes que ainda a virasse, se todos concordassem em dar o papel a Tiago. O que infelizmente ou felizmente aconteceu. Quando acabaram de distribuir as personagens foram alterar algumas coisas no texto e fotocopia-lo.
- Então, como vais “Ana”? - Perguntava Tiago, trocista a Raquel, ao saírem da escola.
- Não me chames Ana! - Trovejava Miky.
- Porquê? Pensei que gostasses do nome…para o escolheres para o nome da protagonista da tua história. - Brincava Tiago.
- Gostava! Até tu ficares com o papel de Mateus! – Berrava Miky.
- Uhh…Gostas assim tanto de mim? - Ironizava Tiago.
Raquel não queira atura-lo mais, conseguira evita-lo durante tanto tempo, e agora de repente, pufff, tinha ido tudo por água abaixo, porque de repente se tinham tornado o par romântico da sua própria história! Foi para casa tão irritada que quando ligou o portátil para fazer um pouco mais do trabalho de área de projecto sobre as doenças cardiovasculares só lhe apetecia dar cabo de Tiago!
Sexta-feira chegou para grande alívio de Miky, e esse fim-de-semana tinha decidido aproveita-lo no parque, quando a aula de matemática acabou Miky saiu disparada para casa, foi buscar o mp4, o portátil, os cadernos e livros, uma manta e algo para petiscar e partiu rumo ao seu sítio preferido - o parque!
Quando lá chegou abriu a manta, sentou-se e espalhou os livros, para poder ver em que disciplinas tinha trabalhos de casa, ligou o portátil e pôs música. Começou por fazer a exposição oral de português: tinha de falar de um sentimento, primeiro pensou no ódio, mas achou que era um tema muito pesado e passado um bocado chegou à conclusão de que não seria má escolha falar sobre o medo. Pegou em caneta e papel e começou a escrever:

O medo é algo que não podemos evitar, todos temos medos, porque todos receamos algo, quer seja medo de animais ou do escuro, medo da morte ou da doença, medo de estar incapacitado ou de depender dos outros, todos os medos servem para nos fazer aprender e crescer. Sempre que superamos um medo aprendemos que existe mais para descobrir, e que se não continuarmos a enfrentar os nossos medos, podemos deixar por descobrir o que o mundo nos reserva.
Mas existe um medo muito especial, para mim, o medo de confiar os meus sentimentos nos outros, para muitas pessoas na nossa idade é fácil e para outras tantas uma tarefa difícil, a de saber em quem confiar, porque nem sempre as pessoas a quem contamos os nossos segredos, são as apropriadas, porque por este ou por aquele motivo, quando estam zangadas, ou tristes, acabam por contar aos outros aquilo que lhe pedimos segredo.
Por isso, acho que me é mais difícil superar esse medo do que o e medo da morte ou da incapacidade, talvez seja patético para alguns de vós, mas esse é o meu maior medo. E esse medo leva-me muitas vezes a evitar amizades com pessoas que talvez até se preocupem mais comigo, e gostem mais de mim do que aquelas em que confio. Talvez tenha de tentar superar esse medo, e formar amizades com as pessoas que até agora evitei, para encontrar alguém que realmente me faça ver a razão. Mas talvez também precise que alguém me ajude. Porque por muito corajosos que sejamos, todos temos medos, e todos precisamos de ajuda para ultrapassar aquele medo que nos “assusta mais
” . -
Definitivamente não tenho jeito para isto! - pensou Miky para consigo


Bia...






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