terça-feira, 21 de julho de 2009

Mudanças...



Quando tocou para a primeira aula, já Lua tinha o número e o email de quase toda a gente. Como era habitual, novo ano escolar significava muitas vezes novos professores, apresentações, mas este ano as apresentações prolongavam-se por longas “missas” sobre como prepara o estudo, e quase todas diziam o mesmo, portanto era como ouvir um disco riscado.
- Tem de se aplicar meninos… Isto já não é o ciclo, no fim do ano tem exames, por isso como sabem devem começar já a estudar, principalmente, porque para o ano vão para uma escola nova, que muito provavelmente será o Colégio Marques de Antunes. - explicava a professora de Inglês.
Quando a campainha soou, e apesar de ser apenas a segunda aula da manhã houve uma evasão direcção à porta.
- Olha tens o número daquele moço? O … Ai como é que ele se chama mesmo? T…Ti… - perguntava Bia a Lua depois de comerem, no jardim da escola.
- Telmo....Não espera…Tiago! – Ripostava Lua.
- Então? Qual é a nova “cusquisse”? – Perguntou Miky.
- Não é “cusquisse”, estávamos só a falar daquela “coisa boa” que chegou à turma! - interpôs Bia.
Miky era para perguntar que “coisa boa” é que +tinha chegado à turma, mas havia alguém que lhe estava constantemente a mandar palmadinhas no ombro, e quando se virou, percebeu logo de que “coisa boa” é que as amigas estavam a falar. Não conseguiu evitar! Olhou para o rapazinho de cima a baixo: era um pouco mais alto que ela (para não variar)Olhos castanhos/pretos que faziam realçar o cabelo, não muito curto, castanho claro, meio ondulado, meio encaracolado.
- Querem vir jogar verdade ou consequência connosco?
Queria falar, mas não conseguia. Queria dizer que sim com a cabeça, mas parecia que as forças a tinham abandonado. Era como se ouvir a voz do rapazinho, fosse paralisante. Decidiu dar um passo em frente, para dar a entender o seu querer, e foi o que bastou. A garrafa rodou, e o jogo começou…
Primeiro começaram por fazer um jogo um bocado alterado, de maneira a se conhecerem melhor, no entanto quando começaram a jogar a sério, nem as moscas estavam a prestar atenção.
- Tens namorado? - Perguntou Tiago ao que ninguém respondeu – mmm, Raquel! Tens namorado? - Repetiu.
- Ah?... O que? Era para mim? - Perguntou Miky toda atrapalhada, com isto o resto do pessoal, pareceu acordar da hipnose, pois começaram os assobios – Não, não tenho. Porque? - Perguntou Miky completamente alheia ao jogo, e por isso contente por conseguir embaraçar Tiago, mas… como nem tudo o que parece, o é, depois de pensar um pouco, Tiago ripostou com um ar maroto - Não é a tua vez!...
Irritada, ou por não ter conseguido dar a volta a situação, ou por não ter obtido resposta para a sua pergunta, Raquel saiu dali, com a estupenda desculpa de ir comprar um sumo. Enquanto se afastava do grupinho o seu pensamento voou para longe, assaltado por inúmeras perguntas: “ Mas para que é que ele queria saber isso!...Será que esta interessado?!...mmm…não! era a ultima coisa que queria agora… um estupor daqueles a chatear-me a cabeça…devo estar a imaginar coisas…!” Depois de comprar o sumo, e quando finalmente arranjou coragem para ir para ao pé dos amigos, é que a campainha tocou e a sua turma se arrastou para a aula de matemática.
Quando a aula chegou ao fim, e como Miky estava estafada, dirigiu-se para casa… ia muito descansadinha, e quase a chegar, quando reparou que estava alguma coisa ao pé do chorão em que ela própria se sentará poucos dias antes de as aulas começarem. Curiosa, aproximou-se e o que até então não passava de uma sombra, sem forma, transformou-se num vulto, pouco nítido, mas Miky sabia que não pertencia aquele cenário, aproximou-se mais e começou a formar-se, por entre as sombras um corpo…andou mais um bocado e apercebeu-se de que era um rapaz, o que achou muito estranho, pois nunca ninguém para além de Miky fora até então para aquele sítio. Teve medo de avançar, mas apercebeu-se de que o “rapaz”, ouvia música e andou mais um bocado, agora a massa cinzenta, começava a tomar cor, e os contornos da face e do resto do corpo, começavam a ficar visíveis, Raquel teve um estranho pressentimento de que já tinha visto alguém com aquele conjunto de roupa nesse dia e por isso aproximou-se mais um pouco, quando finalmente percebeu de quem se tratava o seu corpo congelou tornando-se numa autentica estatua de gelo. Não podia ser possível! Em tanta gente que poderia estar ali, teria mesmo de ser Tiago que estivesse a sua frente!
Deu uma tossidela seca e baixa, ao que Tiago nada respondeu. Por isso deu mais uma e mais outra, irritada por ver que nada acontecia, Raquel arrancou os phones dos ouvidos dele. Alarmado, Tiago levantou-se, mas ao se deparar com Miky sorriu.
- Qual é a piada? - Interrogou esta.
- Nenhuma…mas é que não arranjas-te uma maneira lá muito simpática de me dizeres olá! - Respondeu Tiago aparentemente ainda mais feliz.
- Também não era para te dizer olá! O que fazes aqui? - Interrogou ela sei meias medidas.
- Ouço música, e escrevo umas cenas. Alguma coisa contra? – Perguntou ele.
- Sim, pelo facto de teres dito ao Rafael que ias para casa, e lhe teres mentido! – Impôs Miky.
- Mas eu estou praticamente em casa! - Riu-se e apontou para uma casinha pequena e modesta à frente da de Raquel.
- Vives ali? - Indagou Miky confusa
-Sim, a poucas semanas, mas é minha casa!
Claro, agora Raquel lembrava-se de onde conhecia a cara de Tiago. Tinha-o observado a umas semanas a trazer caixas e caixotes para dentro daquela pequena casa. Mas por que raio insistia Tiago em meter-se sempre no caminho de Miky! Poderia ter sido qualquer outra pessoa, mas não, era precisamente aquele convencido e egoísta que parecia segui-la, e o pior era que se Lua e Bia descobrissem que Tiago era vizinho de Miky não iriam parar de fazer perguntas e Raquel tinha a certeza de que iria começar a receber muito mais visitas das colegas de turma!
Tiago aproximou-se mais de Raquel, e esboçou um sorriso, que quase se poderia dizer ser mais doce que mel. Raquel permaneceu fria e rígida, embora bem no fundo, alguma coisa tivesse mudado quando os seus olhares se trocaram. Estavam tão próximos que Miky, pensou por uns segundos em recuar e quebrar aquela linguagem visual. Mas não, Raquel não mexeu um músculo, no entanto Tiago ia-se aproximando cada vez mais, até que…:
- Tiago, podes ir buscar o teu irmão a escola? Oh…Olá querida! Tudo bem? - perguntava a Raquel uma mulher baixa, e extremamente parecida com Tiago, com excepção aos olhos que eram de um azul marinho…
- Sim, esta tudo…obrigada…eu tenho de ir indo… - gaguejou Miky. E apressou-se a ir para casa, para fazer a imensa carga de trabalhos que o professor de matemática já lhes tinha passado. Mas, quando lá chegou, a sua atenção foi desviada para outra coisa. Mais precisamente para o livro que andava a ler: “As Crónicas de Narina e o Príncipe Caspian”. Olhou fixamente para a capa, como se assim já pudesse saber o que ele continha, mas o que ia na cabeça de Miky não tinha nada a ver com o que estava escrito no livro. Formava-se na sua mente uma imagem nítida de um príncipe moderno com os olhos escuros como a noite, e os cabelos castanhos-claros ondulados/encaracolados. Abanou a cabeça, tentando por as ideias no sítio, levantou-se, pousou o livro e dirigiu-se para a janela. Era difícil aceitar o facto de que no dia em que aquele palerma chegara, ela estivesse com vontade de conhecer novas pessoas, agora tudo o que queria, era estar com os seus velhos amigos: “ Nem o Henrique era pior que ele” - pensou – “E claro que o Henrique era pior que ele, esse triste enganou-se e pós as calças do pijama no saco de educação física e ainda por cima teve a lata de fazer a aula sem sequer perceber que estava em pijama!” - contrariou, rindo para si mesma – “ Bem, mas ao menos não era tão…” - não sabia o que havia de dizer, afinal de contas, só conhecia Tiago a dois dias, mas de vista já adivinhava o que ele realmente era….ou não… - “ eu soube desde o principio, desde a primeira vez que o vi que ele era um…um…aquilo, coiso, tal, arre, apre, poça, aquilo, coiso…eu sabia que ele era isso…acho eu…" - duvidou, pois sabia que não tinha pensado aquilo de Tiago, mas o simples facto de achar que o tinha pensado já a deixava mais descansada e com outra disposição, para o encarar.
Quando no dia seguinte voltou a ver Tiago, quase implorava para que ele não fizesse menção a sua pequena discussão ao pé do chorão, mas felizmente, este não disse nada a ninguém. O resto da semana foi reservado para matar saudades e contar novidades, reencontrar os amigos que já não viam a bastante tempo, e para bem da turma, nenhum professor, para alem do de matemática se lembrou de marcar trabalhos de casa o que fez com que Miky e o resto dos alunos tivessem duas tardes livres para aproveitar na praia.




"'Miky&Bia"'

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